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30 anos da tragédia de Ramstein

As aeronaves colidiram 4 minutos depois da decolagem, ainda cheias de combustível

Cerca de 300 mil pessoas estavam naquele domingo, dia 28 de agosto de 1988, de olho na apresentação da Frecce Tricolori, o Esquadrão de Demonstração Aérea da Força Aérea Italiana na Base Aérea de Ramstein, na Alemanha. De repente, a manobra “coração flechado” acabou com a colisão de três MB-399. Setenta pessoas morreram e cerca de 500 pessoas ficaram feridas.

Tudo o que poderia dar errado naquele dia, deu. Primeiro, o público foi posicionado em uma área inadequada: um dos aviões caiu exatamente sobre as pessoas, espalhando combustível e provocando um enorme incêndio. Outro teve pior sorte: atingiu exatamente o helicóptero UH-60 Black Hawk que seria usado para eventuais emergências.

As investigações revelaram erros críticos das equipes de resgate. Apesar de ser na Alemanha, Ramstein era uma base norte-americana. Por dificuldades de diálogo entre autoridades, depois da tragédia as ambulâncias locais tiveram que esperar um pouco na entrada da base.

Além do acidente no ar, tragédia foi marcada por problemas do atendimento às vítimas

O mais emblemático foi um ônibus que quase três horas depois chegou ao hospital de Ludwigshafen cheio de pessoas queimadas que ainda estavam sem atendimento. E o motorista, sem a companhia de nenhum paramédico, não conhecia a cidade nem falava alemão.

Até dentro dos hospitais ocorreu um problema que até então ninguém havia imaginado: os acessos intravenosos usados pelos militares norte-americanos na base eram incompatíveis com os cateteres usados pelos alemães nos hospitais.

Aermacchi MB-339 semelhante aos envolvidos no acidente

E o que causou a tragédia?

Foi o erro (?!) de um único piloto. A Frecce Tricolori havia decolado às 15h40, horário local. Uma das primeiras manobras seria o “coração flechado”. Parece muito com o “coração” da Esquadrilha da Fumaça, mas com 2 diferenças: a primeira é que são mais aeronaves, cinco de um lado, e quatro do outro. A segunda é que no momento em que a figura vai se fechar, o caça solo passa em alta velocidade para “flechar” o coração.

Diagrama do acidente aéreo em Ramstein. Notar a trajetória da aeronave isolada, representada em vermelho

E foi aí o problema.

O Tenente-Coronel Ivo Nutarelli, na época com 38 anos, tinha no currículo 4 mil horas de voo, incluindo caças F-86 e F-104 Starfighter, e quase oito anos de Frecce Tricolori, sendo os dois últimos como o solista. No dia do acidente, porém, fez o “cruzamento da flecha” mais baixo e mais rápido que o combinado. A colisão aconteceu às 15h44, quatro minutos após a decolagem.

O MB-339 de Nutarelli atravessou a parte traseira do avião líder da formação que “fechava o coração” à esquerda. Era a aeronave do Tenente-Coronel Mario Naldini, que começou a girar fora de controle e assim também atingiu MB-339 pilotado pelo Capitão Giorgio Alessio.

Flagrante da colisão em Ramstein

O avião de Nutarelli teve toda a sua seção frontal destruída já na colisão. O jato virou uma bola de fogo e caiu sobre o público, espalhando combustível. O MB-339 de Naldini caiu sobre a pista, destruindo o H-60 que estava próximo. Ele foi o único a tentar ejetar, mas morreu ao impactar o solo. A terceira aeronave, do Capitão Alessio, caiu rapidamente no solo, ao lado da pista, virando uma bola de fogo.

Todo o acidente, desde a primeira colisão até os impactos em solo, durou menos de 7 segundos. As aeronaves estavam a meros 45 metros de altura. O avião de Nutarelli atingiu em cheio o público que acompanhava o show aéreo naquela que era considerada a melhor posição para os espectadores. Como era o início da apresentação, o MB-339 ainda tinha muito combustível, o que causou o incêndio, principal fator para o elevado número de feridos.

Até hoje, a família do Tenente-Coronel Ivo Nutarelli defende que o piloto não foi responsável. Foi comprovado por imagens que, antes da colisão, seu trem de pouso começou a ser baixado, uma possível tentativa desesperada para reduzir a velocidade no último momento. Porém, nada indica que isso poderia ter ocorrido voluntariamente ou por uma pane. Completamente destruída, a aeronave não deixou muitos elementos para a investigação.

Flagrante revela a aeronave com o trem de pouso baixado

Uma teoria da conspiração ganhou força na Itália. Os dois pilotos inicialmente envolvidos no acidente, Ivo Nutarelli e Mario Naldini, tiveram uma participação ainda hoje não explicada em uma outra tragédia, chamada de “O Massacre de Ustica”.

Em 27 de junho de 1980, um DC-9 da empresa Itavio caiu próximo à ilha de Ustica, matando todos os seus 81 ocupantes. Até o ex-presidente italiano Francesco Cossiga atribuiu a explosão a um míssil. Naquela noite, os dois pilotos italianos que futuramente iriam para a Frecce Tricolori estavam juntos a bordo de um caça TF-104 Starfighter e fizeram, mais de uma vez, alertas sobre “segurança aérea”. Até hoje não se sabe publicamente o porquê dos alertas.

O fato confirmado é que depois do acidente de Ramstein houve mudanças nos regulamentos sobre shows aéreos, especialmente sobre a localização do público. Mesmo assim, a tragédia de Ramstein ainda foi superada, em termos de vítimas, por um outro acidente em show aéreo. Em 27 de julho de 2002, um Sukhoi Su-27 da Força Aérea da Ucrânica caiu durante um show aéreo em Sknyliv: 79 pessoas morreram e 543 ficaram feridas.

A banda de metal alemã Rammstein (Com duas letras “m”) teria tido seu nome inspirado no acidente aéreo. Depois da fama, os integrantes negaram a relação. Porém, a música “Ramstein”, gravada em 1995 no álbum de estreia, tem versos reveladores: “Rammstein / um mar de chamas / coágulos de sangue no asfalto / mães estão gritando / o sol está brilhando / nenhum pássaro canta mais / Rammstein”.

Capa de um dos primeiros singles lançados pela banda Rammstein

 

Veja abaixo filmagens do dia do acidente:

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