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Há 40 anos, tragédia aérea lembrou riscos de voar na Antártica

Aeronave acidentada tinha cinco anos de uso. Foto: Eduard Marmet

Há 40 anos, em 28 de novembro de 1979, um avião DC-10 da Air New Zealand 901 colidiu com o Monte Ébero, na Antártica, e lembrou ao mundo os riscos de voar em uma região de clima inóspito. Todos os 237 passageiros e 20 tripulantes morreram naquela que foi até hoje a maior tragédia da história da Nova Zelândia em tempos de paz.

A aeronave havia decolado do aeroporto de Auckland com um único objetivo: proporcionar aos passageiros belíssimas visões da Antártica. Era o 14º voo do tipo, em uma rota que tinha como destaque um sobrevoo a 610 metros de altura sobre as águas do Estreito de McMurdo. Edmundo Hillary, primeiro alpinista a escalar o Everest, já havia atuado como uma espécie de guia turístico em outros voos, mas naquele 28 de novembro pediu para um colega o substituir na tarefa de entreter os turistas.

Em 2004 ainda havia destroços da aeronave na montanha

No dia da tragédia, o capitão Jim Collins, o co-piloto Greg Cassin e o engenheiro de voo Gordon Brooks decolaram pela manhã com o DC-10-30 matrícula ZK-NZP do aeroporto de Auckland. O plano de voo previa percorrer cerca de 8.830 km em um longo passeio na região Antártica, com pouso às 18h05 em Christchurch. Os pilotos acreditavam ter boas condições visuais quando fizeram duas longas voltas para reduzir a altura para 610 metros, porém, possivelmente não foi sequer notado que estavam voando direto para o Monte Ébero, um vulcão de 3.794 metros situado na ilha de Ross.

O sistema de aviso de proximidade com o solo emitiu os alertas “Whoop whoop Pull up”. A tripulação chegou a acionar o “Go-Around”, sistema automático para sair daquela situação, mas não houve tempo: às 12h50 o DC-10 bateu a uma altura de 447 metros.

Erros e empura-empurra

Funcionários da Air New Zealand diziam aos familiares que havia um atraso. Às 21h, quando acabou o prazo máximo para a autonomia, o DC-10 foi dado oficialmente como perdido. As primeiras especulações diziam respeito a um possível erro de navegação. Porém, às 9 da manhã do dia seguinte foram localizados destroços na área do vulcão. O cenário já deixava clara a ausência de sobreviventes.

“Erro dos pilotos” foi apontado como a causa imediata para o acidente. Porém, nos anos seguintes, investigações revelaram o total despreparo da companhia para realizar aquelas expedições turísticas. Para começar, as próprias publicidades da Air New Zealand mostravam a possibilidade de fazer fotos a baixa altura, quando as regras de segurança impediam voos a menos de 1.800 metros.

Ainda que bastante experientes, nenhum dos dois pilotos jamais havia voado naquela região. Pior: não havia instruções específicas sobre um fenômeno chamado de “apagão”, quando o clarão do céu, da neve e do gelo se misturam, levando à possível confusão entre o que é uma montanha branca e o que é um espaço aéreo livre. A falta de reação dos pilotos, registrada nos gravadores de dados e de voz, deixaram claro que eles não tinham a menor ideia de que voavam em direção ao Monte Ébero. Os recolhimento de destroços permitiram saber a localização exata do impacto, pois passageiros faziam fotos das janelas.

A dificuldade de visualizar a montanha foi um fator contribuinte decisivo para o acidente

A Real Comissão Real de Inquéritos da Nova Zelândia descobriu posteriormente que havia erros no próprio planejamento dos voos. O plano de voo aprovado dois anos antes nunca havia sido cumprido de fato. Porém, antes desse 14º voo a companhia modificou coordenadas a serem inseridas no sistema de navegação da aeronave, sem a tripulação saber. Nem os planejadores nem os tripulantes compararam a rota com um mapa topográfico da região. Não havia sequer mapas detalhados.

A Air New Zealand foi acusada pela opinião pública de criar uma verdadeira cortina de fumaça para encobrir seus erros e culpar apenas os pilotos mortos. A empresa, que era um orgulho nacional, teve sua reputação fortemente abalada pela tragédia que abalou a nação, à época com apenas cerca de 3 milhões de habitantes. Só em 2009 houve um primeiro pedido de desculpas públicas pela tragédia.

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