AVIAÇÃO COMERCIAL & PRIVADA DOS ARQUIVOS DE ASAS

Sequestro, MiGs ou Descompressão?

Construído em 1966, o PP-VLU tinha quatro motores JT3D-3B

Há exatos 40 anos ocorria um dos maiores mistérios da aviação brasileira (e mundial). No dia 30 de janeiro de 1979, um Boeing 707-323C da Varig desapareceu enquanto voava entre o Aeroporto Internacional de Narita, em Tóquio, e o Aeroporto Internacional de Los Angeles. Era o Voo 967, operado com a aeronave de matrícula PP-VLU. O destino final era o Aeroporto Internacional do Galeão.

Nenhum vestígio da aeronave foi encontrado até hoje. Militares japoneses e norte-americanos realizaram buscas por mais de um mês, mas não viram nenhuma peça, nenhum rastro dos seis ocupantes, nenhuma mancha de óleo, muito menos as 20 toneladas de carga, quase toda de equipamentos eletrônicos e máquinas. A parte mais valiosa, porém, era até leve: 53 obras do artista nipo-brasileiro Manabu Mabe, à época avaliadas em cerca de 1,24 milhão de dólares.

Falecido em 1997, Manabu Abe conseguiu refazer a maior parte das obras perdidas no acidente

Sequestro?

Esse fato inusitado fez com que o insucesso das missões de busca alimentasse “teorias” da conspiração. Os anos 60 e 70 ficaram conhecidos como “A Era de Ouro dos Sequestros de Avião”, fruto da explosiva combinação de movimentos terroristas e falta de procedimentos de segurança atualmente básicos, como uso de detectores de metais. Só entre 1969 e 1972, nada menos que quinze aviões foram sequestrados no Brasil. Um único Boeing 707 da Varig teve a “proeza” de ser sequestrado três vezes em menos de seis meses. Como todos os sequestros resultaram em pousos em Havana, o avião ficou jocosamente conhecido como “Expressinho Cubano”.

Foi fácil pensarem que esse teria sido o destino do 707 desaparecido após decolar do Japão, ainda mais por conta da sua carga preciosa. Mas meses e anos se passaram e não houve qualquer pedido de resgate do Voo 967. Nem as obras perdidas de Manabu Mabe jamais foram localizadas nas mãos de algum contrabandista de arte.

Ato de guerra?

Capa da revista Time de 1983, depois do segundo 707 coreano ser abatido.

Um outro temor estava na mente do público: o abate de aeronaves civis. Menos de um ano antes do desaparecimento do avião brasileiro, em 20 de abril de 1978, um 707 da Korean Air Lines se desviou da rota planejada em um voo entre Paris e o Alaska e, ao ingressar no espaço aéreo soviético, acabou atingido por um míssil AA-8 Aphid lançado de um interceptador Su-15. O avião civil fez um pouso forçado em um lago da própria União Soviética. Dois ocupantes morreram. Cento e cinco passageiros e tripulantes foram resgatados pelos soviéticos e detidos por dois dias antes de serem liberados. O piloto e o navegador, que também sobreviveram, passaram uma semana a mais na cadeia, antes de também ganharem a liberdade.

Também em 1978, em 3 de setembro, 38 pessoas morreram quando um Vickers Viscount da Air Rhodesia foi atingido por um míssil terra-ar Strela-2 durante a revolução naquele país, hoje chamado de Zimbábue. Outras dez, incluindo uma mãe com um bebê recém-nascido, foram mortas em solo. Também estava viva na memória do público a destruição do Boeing 727 da Lybian Arab Airlines, abatido por caças F-4 Phantom II da Força Aérea de Israel a tiros de canhão de 20mm em 1973. Cento e oito pessoas morreram.

Quem acreditava em ato hostil dos soviéticos voltou a falar do assunto em 1983, quando todos os 269 ocupantes de outro Boeing 707 da Korean Air Lines morreram depois de, pela segunda vez, um de navegação dos coreanos ter levado o avião comercial a invadir o espaço aéreo soviético. Dessa vez, o interceptador Su-15 não deixou chances para a aeronave, confundida com um avião-espião dos EUA.

O caso da Varig, contudo, tem algumas diferenças. Não foram achados rastros de explosão, como destroços espalhados. As forças aéreas envolvidas também não comunicaram nada a respeito.

Capaz de voar a quase 3 vezes a velocidade do som, o MiG-25 era um dos principais temores do Ocidente nos anos 70

O destino

Outras histórias ainda mais fantasiosas se espalharam. Um moderno caça soviético teria deserdado para o Japão e o avião brasileiro iria leva-lo para os Estados Unidos. Os russos, então, o abateram. Outra variante é que a aeronave foi interceptada, forçada a pousar na Sibéria e lá os tripulantes brasileiros foram mortos. Nada, porém, tem qualquer indício de realidade. Também, claro, houve quem falasse de extraterrestres.

A hipótese mais plausível, contudo, é bem menos “cinematográfica”: o avião pode ter sofrido uma despressurização e, desmaiados, os ocupantes nada puderam fazer. Com o piloto automático acionado, é possível que o avião tenha voado milhares de quilômetros antes de cair no mar a baixa velocidade, espalhando poucos destroços, para enfim repousar no fundo do Pacífico.

A rota de mais de 8 mil quilômetros entre Tóquio e Los Angeles é feita quase que inteiramente sobre a água

Mas, sem qualquer indício, nenhuma hipótese pode ser sequer chamada de teoria. Restou então a dor das famílias dos engenheiros de voo Nicola Esposito (40 anos) e José Severino Gusmão de Araújo (42); dos pilotos Erni Peixoto Mylius (45), Antônio Brasileiro da Silva Neto (39) e Evan Braga Sauders (37); e do comandante da aeronave, Gilberto Araújo da Silva (49).

A experiente tripulação não mandou nenhum pedido de socorro

Esse último já era conhecido no noticiário brasileiro. Em 1973, ele comandou o pouso de emergência de outro Boeing 707 da Varig com 134 pessoas a bordo, em uma plantação de cebolas já próxima ao Aeroporto de Orly, na França. A aeronave sofreu um incêndio a bordo por causa de um cigarro na lixeira de um lavatório. Naquele dia, o Comandante Gilberto conseguiu salvar onze vidas, incluindo a sua.

O Comandante era considerado um herói por ter conseguido pousar um 707 com um incêndio a bordo

Ninguém sabe o que ele fez ou tentou fazer naquele dia 30 de janeiro de 1979, quando já acumulava mais de 23 mil horas de voo. Só o que se sabe é que, como combinado, depois de 22 minutos de voo, às 20h45 no horário local, a tripulação fez contato com o controle aéreo japonês. Trinta e oito minutos depois, quando deveria falar mais uma vez no rádio, houve silêncio.

Um silêncio que se mantém até hoje.

 

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Redação

Comentários

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  • Interessante aí na reportagem é citar o bem mais preciso perdido …..as obras de arte, após citar q seis tripulantes estavam a bordo. Meio difícil compreender !!!
    APROVEITEM e vejam no Google; PENTÁGONO PREVÊ CATÁSTROFES SEM PRECEDENTES feito em 2004 previa q tudo ocorresse entre 2010 e 2020…..estamos em 2019
    Abração p todo mundo aí….

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