DESTINO ASAS

Surpresa em Moscou

 Por Claudio Lucchesi

Poucas aeronaves militares soviéticas despertaram mais rumores, mitos e lendas, durante a Guerra Fria, do que os chamados veículos GEV (Ground Effect Vehicle, veículo de Efeito Solo) – começando pelo fato de que a Inteligência ocidental de início sequer sabia se os classificava como “embarcações” ou “aeronaves”! Em sua terra-natal, eram os “ekranoplanos” – do russo “ékran” (tela ou manto) e “plán” (nave), com o “manto” referindo-se ao efeito de sustentação dinâmica criado pelo veículo, de asas muito peculiares, movendo-se veloz, à baixíssima altitude, sobre uma superfície plana (como o mar). Quando os satélites-espiões dos EUA “descobriram” numa base naval no Mar Cáspio, o exemplar de testes de um futuro modelo operacional, medindo mais de 90m de comprimento, não tiveram dúvidas em batizá-lo de “Monstro do Cáspio”!

Isto foi nos anos 70 e 80.

Então, imagine a surpresa ao se deparar, em plena capital da moderna Rússia, com um legítimo descendente de tal leviatã!

Pois é.

Não se trata do próprio “Monstro” (aliás este, cuja designação era KM, foi perdido num acidente em 1980), mas de um exemplar do único ekranoplano produzido em série e que chegou a ser operacional na Marinha soviética – o Orlyonok (Classe A-90). Não tinha os 90m do KM, mas nem por isso suas medidas não impressionavam – 58,10m de comprimento, com peso máximo de “voo” de 125.000kg!

Os Orlyonok A-90 eram para transporte militar e assalto anfíbio – no que era muito útil sua velocidade de até 400km/h, de longe superior à de qualquer embarcação de desembarque. Ao contrário dos outros ekranoplanos, tinham trem de pouso, podendo decolar/pousar tanto em terra quanto no mar. Além disso, para as operações anfíbias, podiam abrir para o lado todo o seu conjunto frontal (que incluía seus motores dianteiros, cockpit e nariz, com o radar), tendo uma rampa retrátil de acesso – assim, sem nenhum auxílio externo, podiam ser embarcadas ou desembarcadas tropas e veículos, incluindo veículos blindados como os BTR-60.

Como os outros ekranoplanos, tinham uma motorização de dupla função – nos A-90, dois turbofans Kuznetzov NK-8-4K, posicionados no nariz, para a decolagem e um empuxo extra no “voo”, quando a propulsão principal era por conta de um gigantesco motor turboélice Kuznetzov NK-12MK, montado no topo da cauda em T.

Tendo feito seu primeiro “voo” em 1972, os Orlyonok entraram em serviço na Marinha soviética em 1979, com planos para a incorporação de 11 exemplares até 1990. Porém, apenas cinco foram construídos (incluindo os dois protótipos), todos reunidos numa unidade especial (a única já ativada no mundo, de veículos GEV!), o 11º Grupo Aéreo da Frota do Mar Negro. Enfim, em 1993, com o colapso da URSS, os três remanescentes (dois foram perdidos, incluindo um dos protótipos) foram retirados de serviço pela então Marinha russa, mas ficando estocados na Base Naval de Kaspiysk.

Nenhum destes ekranoplanos jamais participou de uma exibição pública – nem mesmo na própria Rússia! E pouquíssimos estrangeiros, incluindo jornalistas, já tiveram autorização de visitar Kaspiysk.

Deu para sentir a emoção, portanto, de ver “ao vivo” essa criatura!?

Isso porque, em 2007, o Orlyonov de registro “S-26” (o último construído, em 1980) foi transportado por via fluvial, desde a base naval, até o lago do Reservatório Khimki (Khimkinskoye Vodokhranilishche), nos subúrbios afastados da região noroeste da capital russa, onde foi colocado em exibição no ano seguinte, num conjunto ainda não concluído, que será o futuro Museu Naval de Moscou – mas o A-90 pode já ser visitado!

E como se não bastasse a sua presença, no lugar também pode ser vista outra relíquia da Guerra Fria – um legítimo submarino diesel-elétrico oceânico da antiga Marinha soviética! E que pode, inclusive, ser visitado por dentro!

É o “Novosibirskiy Komsomolets” (B-396), da Classe (Projeto) 641B (conhecida no Ocidente como “Tango”), incorporado pela Marinha soviética em 1980. Em serviço, foi teve por bases Polyarnyi e Linakhamari, e realizando missões no Mediterrâneo, Atlântico Norte e Sul, Mar de Barents e próximo do litoral da Noruega. Enfim, já na Marinha da Rússia, foi desativado em 1998, e dois anos depois, o pessoal do Sevmash Design Bureau iniciou os trabalhos de sua transformação em museu, o que foi completado em 2003, quando o submarino foi posicionado em Khimkinskoye.

SERVIÇO:

Para ver tanto o Orlyonok S-26 quanto o B-396, estando em Moscou, Rússia, siga de metrô até a Estação Skhodnenskaya, seguindo então pelo Boulevar Khimkinskiy até o lago – exatamente no ponto onde estão o ekranoplano e o submarino.

 

 

Posto de pilotagem do “Novosibirskiy Komsomolets” (B-396).

 

Um terceiro veículo que pode ser visto em Khimkinskoye é este hovercraft militar da Classe Gus, que foi operada pela Marinha soviética entre 1969 e 1991. Um total de 32 foram construídos, podendo transportar 25 soldados totalmente equipados para combate.

Sobre o autor

Claudio "Lontra" Lucchesi

Editor da Revista Asas

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