DOS ARQUIVOS DE ASAS

Uma fuga da base secreta de Hitler

Lançamento de um míssil V-2 em Peenemünde, em 1943.
Lançamento de um míssil V-2 em Peenemünde, em 1943.

Matéria originalmente escrita por Dmitry Yurov (https://tvzvezda.ru)
Tradução e adaptação da equipe de ASAS

Apesar de terem sido notáveis os feitos dos ases da caça soviética, como Ivan Kozhedub e Alexander Pokryshkin, e inegável a sua contribuição para a derrota no Leste da Luftwaffe (Força Aérea alemã), é inconteste que a espinha dorsal do poderio aéreo soviético na 2ª Guerra Mundial foi a sua aviação de combate e assalto, que no período de 1943-1945 espalhou a destruição nas forças terrestres de Hitler, pavimentando o caminho vitorioso do Exército Vermelho, até o coração do 3º Reich.

Esta força aerotática foi constituída por milhares de pilotos, muitos dos quais eram veteranos experientes – mas nos primeiros meses da guerra, diante da agressão nazista, a luta era desigual e sangrenta. Foi neste período, atuando então num esquadrão de caça na região de Minsk, hoje Bielorrússia, que o então jovem Tenente Mikhail Devyataev entrou em combate com o invasor. No outono (segundo semestre) de 1941, ele já havia realizado mais de 180 missões, e conquistado o status de “ás”, com nove aeronaves inimigas abatidas.

No final de setembro, durante uma missão, sofreu ferimentos graves, e o veredicto médico é que devia ser afastado do serviço de voo na aviação de caça. Como resultado, uma das alternativas era a sua transferência para uma unidade de ataque ou de bombardeiro, passando depois para a ambulância aérea. Devyataev, entretanto, tinha alma de caçador e, passados apenas três anos, no final da primavera de 1944, conseguiu voltar à caça na unidade do próprio Alexander Pokryshkin, a 9ª Divisão de Caça da Guarda, na 1ª Frente Ucraniana.

Voando agora o caça de fabricação norte-americana, Bell P-39 Aerocobra, Devyataev voltou à ação, realizando muitas missões de caça-bombardeiro e de ataque. Numa destas, atuando sem cobertura de caças amigos, durante a Ofensiva de Lviv do Exército Vermelho, seu P-39 foi engajado por três Messerschmitt Bf-109 e derrubado.

Com a aeronave condenada, Devyataev abriu a porta do cockpit (que, no P-39, era similar à porta de um carro) e pulou fora. Infelizmente, porém, seu corpo atingiu o estabilizador da cauda da própria aeronave. Segundos antes de perder a consciência, porém, conseguiu acionar o seu paraquedas. Caindo em território inimigo, foi logo feito prisioneiro por tropas alemãs e, quase morto, encaminhado para um ponto de distribuição para prisioneiros de guerra. Quase imediatamente após o exame físico, foi enviado ao campo de concentração Klein-Koenigsberg, onde começaria a verdadeira luta pela sobrevivência.

Como se sabe, os nazistas tinham uma política de extermínio no Leste, e não seguiam nenhuma regra de prisioneiros de guerra com os soviéticos – ao contrário, mesmo rendidos, oficiais de alta patente e comissários políticos (que também eram militares) do Exército Vermelho eram sumariamente executados, na maior parte das vezes. Mesmo os que eram “poupados”, seguiam para campos de concentração e de trabalhos forçados; ao contrário de militares britânicos e norte-americanos, aos quais os nazistas respeitavam o status de prisioneiros de guerra.

Percebendo logo qual era o seu destino, sendo deixado apenas com as roupas do corpo, Devyataev logo encontrou outros prisioneiros soviéticos com espírito de luta igual ao seu, formando-se um grupo de fuga, que logo iniciou os preparativos para o escape do campo. Trabalhando após o anoitecer, o grupo de Devyataeva foi escavando diariamente um túnel. Utilizavam meios e luzes dos mais improvisados, mas o plano de fuga foi pensado em detalhes: não só o horário e os intervalos dos guardas de segurança foram levados em conta, mas também o assentamento mais próximo, que estava a vários quilômetros de distância.

Porém, pouco antes da fuga planejada, a segurança do campo descobriu o esquema, disso resultando na sumária execução de alguns prisioneiros. O restante dos “rebelados” foi condenado à transferência para um dos mais terríveis campos de extermínio nazistas, o de Sachsenhausen, do qual era praticamente impossível sair com vida.

Porém o acaso veio em socorro de Devyataev – em sua transferência, em vez de seu nome e dados – onde constava que devia ser sumariamente executado; o aviador recebeu o nome e dados de um outro prisioneiro (que não conhecia), o qual não estava como ele já selecionado para morte imediata. A “confusão” não eliminava a possibilidade do destino nas câmaras de gás de Sachsenhausen, mas com certeza aumentou significativamente as chances de sobrevivência do aviador. E, de imediato, Devyataev passou a desenvolver, secretamente, um novo plano de fuga.

Entretanto, antes das câmaras de gás, ou de uma nova tentativa de fuga, no outono de 1944, os mais saudáveis ​​e capazes de trabalhar entre os prisioneiros de Sachsenhausen foram transportados para aquele que devia ser então o segundo lugar mais importante e secreto de todo o 3º Reich, atrás apenas do bunker pessoal do próprio Hitler – a Ilha Usedom, no Mar Báltico, onde estava localizada a base de pesquisas de armas secreta da Alemanha nazista, Peenemünde, especialmente notável pelos programas das chamas “armas de vingança” de Hitler, os mísseis V-1 (tipo “bomba voadora”) e V-2 (o primeiro míssil balístico operacional do mundo). Nos laboratórios e outras instalações de pesquisa, especialistas alemães criavam e testavam estas e outras armas de retaliação. Principalmente com os dois mísseis citados, Hitler e sua corte acreditavam ainda poder reverter o curso das hostilidades (então já totalmente desfavorável à Alemanha), não só na Europa, mas em todo o mundo.

Obviamente, o trabalho forçado num local tão secreto quanto este, para os prisioneiros, só podia terminar, sem exceção, com a morte – mesmo as mais insignificantes informações insignificantes sobre os desenvolvimentos alemães poderiam revelar segredos decisivos daquelas tecnologias então únicas de mísseis.

Estimava-se a “vida útil” de um prisioneiro em Usedom em um mês.

Chegando na ilha, Devyataev logo compreendeu muito bem que não havia praticamente nenhuma outra tentativa de sair da ilha, exceto pelo ar. Além das instalações de pesquisas e de montagem e testes das armas e sistemas experimentais, o complexo possuía um aeródromo próprio, protegido pelas unidades SS, no qual havia tanto caças Messerschmitt (para proteção do complexo), quanto bombardeiros Heinkel He-111, usualmente empregados como aeronaves-laboratório, para testes das armas experimentais, muitas vezes lançadas em voo para estudar suas características do vôo.

Assim, amadureceu um plano na cabeça de Devyataev. Era, claro, de alto risco – fugir roubando um dos Heinkel no aeródromo!

Para chegar ao estacionamento destas aeronaves, era preciso passar não apenas pelos guardas de segurança, mas também por técnicos e militares da Luftwaffe. No ousado plano concebido, um grupo de dez prisioneiros iria primeiro “neutralizar” os guardas e então, com alguns dos prisioneiros vestindo os uniformes militares dos guardas, iriam “escoltar” os demais fugitivos até um dos He-111, como se fosse haver uma relocação destes. Devyataev devia ser o piloto, mas seus conhecimentos de um avião de combate germânico eram apenas básicos, até porque um piloto soviético não tinha permissão para pilotar caças e bombardeiros do inimigo. Mas o plano prosseguiu e funcionou – de repente, o grupo de prisioneiros estava dentro de um He-111. E Devyataev, no cockpit deste. Intuitivamente, “compreendeu” a cabine do bombardeiro e seus comandos, que nunca tinha visto antes! Ligou os motores e colocou o aparelho para taxiar na pista.

O He-111 era muito mais pesado que os caças a que Devyataev estava acostumado, e numa primeira corrida na pista, não conseguiu decolar. Mas logo percebeu seu erro, e reposicionando-se na pista, iniciou nova corrida. Potência no máximo, desta vez o Heinkel correspondeu e, ante uma guarnição atônita no aeródromo, o bombardeiro cheio de prisioneiros soviéticos em fuga decolou!

Estavam fugindo da base mais secreta de toda a Alemanha!

Era 8 de fevereiro de 1945.

Tentando reagir, um Bf-109 decolou minutos depois, com ordens de abater o He-111 a qualquer custo – para o comandante militar de Peenemünde, aquela fuga poderia significar não apenas o fim de sua carreira militar, provavelmente iria lhe custar a vida!

Porém, o Messerschmitt retornou sem sucesso – o He-111 escapara!

Com a notícia daquela fuga “impossível” já tendo chegado a Berlim, a situação ficou desesperadora. Em 13 de fevereiro de 1945, o líder supremo da própria Luftwaffe, o Marechal-do-Ar Hermann Göring, acompanhado por Martin Bormann (um dos mais proeminentes, e temidos, líderes do Partido Nazista), chegou a Peenemünde, visando descobrir o que houvera. Segundo alguns historiadores, o mais provável é que, para evitar a forca ou o fuzilamento, tenha sido forjada uma “versão oficial”, bem-sucedida, do episódio. “É provável que o Comando do complexo, assim como o piloto enviado para interceptar o avião roubado, e outros envolvidos, simplesmente mentiram, diante do fato de quão cruelmente poderiam vir a ser punidos pela liderança do 3º Reich, independentemente de seus postos e condecorações “, comenta o historiador russo Pyotr Krezhevsky. Assim, chegando em Peenemünde, provavelmente Göring e Bormann foram informados de que o avião dos fugitivos fora interceptado com sucesso e abatido sobre o Báltico – um incidente terrivelmente vergonhoso era assim resolvido com conseqüências mínimas.

Apesar do combustível nos tanques dar ao Heinkel um alcance bem além de Moscou – em voo direto, a distância de Peenemünde à capital soviética era de pouco mais de 1.500km, enquanto o He-111 podia chegar a 2.300km; Devyataev e sua “tripulação” não conseguiriam chegar à Moscou. Passando sobre a linha de frente, o bombardeiro da Luftwaffe foi atingido pela artilharia antiaérea soviética, e com as avarias sofridas, seu piloto teve de optar por um pouso de emergência, feito perto da aldeia de Gollin, área em que estava então o 61º Exército soviético. Estavam a cerca de 300km de seu cativeiro – e livres!

Devyataev e seus colegas, porém, tiveram de sair do avião condenado direto para o frio glacial do inverno, e houve a previsível sequência de interrogatórios da Inteligência militar para verificar se o piloto e seus colegas não eram desertores que estavam então a operar como agentes para os alemães.

Tudo esclarecido, as investigações mostraram, por outro lado, que a ação ousada do grupo resultara em muito mais que uma fuga de prisioneiros. De fato, o He-111 utilizado não era um “simples bombardeiro”, mas uma aeronave-laboratório preciosa, utilizada nos testes dos mísseis, e assim “recheada” de equipamentos então ultra-secretos de comunicações, controle e monitoramento dos lançamentos das armas V, bem como um conjunto completo de instrumentos de medição. Estudando tal “tesouro”, os técnicos e engenheiros de rádio-física soviéticos e as empresas deste campo não apenas descerravam muitos segredos do inimigo, como puderam aprender aquela sofisticada tecnologia e descobrir como a utilizar em seus próprios equipamentos militares!

Depois de apoiar o trabalho dos serviços de Contra-Inteligência, Devyataev iria acabar se envolvendo ativamente no apoio ao trabalho das Forças soviéticas de analisar, apresar e estudar tudo o que pode ser obtido em Peenemünde, após toda a ilha ser capturada pelo Exército soviético, em 5 de maio (de fato, devido à uma campanha de bombardeio dos norte-americanos contra o centro de pesquisas, as atividades deste haviam sido levadas para outras instalações à partir de 17 de fevereiro).

Posteriormente, Devyataev se uniria à equipe do líder-fundador da moderna cosmonáutica soviética, Sergey Korolev, e não é exagero dizer que a ousada fuga do piloto e seu grupo, no inverno de 1944-1945, contribuiu de modo muito relevante para abrir aos soviéticos muitos dos segredos dos mísseis de cruzeiro e balísticos alemães, suas características de voo, operação e outros detalhes técnicos; que juntos com outras contribuições, permitiram à União Soviética, apenas alguns anos após a assinatura da rendição germânica, iniciar seu próprio programa de desenvolvimento de sistemas de armas avançados.

Sobre o autor

Rafael Rinaldi

Administrador de empresas, formado em Manutenção de Aeronaves. Apaixonado por aviação, fotografia e História. Colecionador de caixas de kits e plastimodelista nas horas vagas

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