Entre 2023 e 2025, a movimentação aérea militar caiu de 18,45%, entre pousos e decolagens nos 100 principais aeródromos brasileiros. Em 2023, foram 196.709 movimentos. No ano seguinte já houve uma queda de 7%, chegado a 182.869 pousos e decolagens. Já em 2025 houve uma nova redução, de 12,3%, chegando a 160.398 movimentos.
Os dados constam no Anuário Estatístico de Tráfego Aéreo 2025, produzido pelo Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea (CGNA), unidade subordinada ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), do Comando da Aeronáutica. Os dados envolvem cem aeródromos brasileiros, incluindo alguns de movimento essencialmente militar, como a Base Aérea de Santa Cruz, a Base Aérea de Anápolis, a Base Aérea de Canoas e a Academia da Força Aérea (AFA).

Queda de movimento nas bases aéreas
Os números específicos da AFA revelam a queda da atividade de aviação militar. Em 2023, foram registrados 39.187 decolagens e pousos desse tipo de aviação. Em 2024, o número chegou a 35.954 e em 2025 ficou em 32.542. A queda em dois anos é de 16,95%. Ainda assim, o local é aeródromo com maior movimentação aérea militar do País, mais que o dobro do segundo lugar, a Base Aérea de Natal, que teve 15.459 pousos e decolagens em 2025. Em terceiro lugar vem a Base Aérea de Brasília, com 8.893 movimentos aéreos militares registrados.
Na Base Aérea de Canoas, onde estão sediados três unidades aéreas, equipadas com aeronaves F-5EM e F-5FM, P-95 e C-95M, foram registrados 4.502 pousos e decolagens militares em 2025, uma queda de 44%. Porém, vale destacar que o local serviu para operações humanitárias em 2024 por conta das enchentes no Rio Grande do Sul.
Outro local de queda significativa das operações militares está no mesmo estado: a Base Aérea de Santa Maria registrou 2.438 pousos e decolagens em 2025, uma redução de 41% frente a 2024. A unidade abriga um esquadrão com helicópteros H-60 Black Hawk, outro com drones e os dois últimos que ainda voam jatos de ataque A-1 AMX, já em fase avançada de desativação.
Chama a atenção, por fim, a queda de 24% na movimentação aérea militar registrada na Base Aérea de Santa Cruz, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. O local é casa do 1º Grupo de Aviação de Caça, equipado com caças F-5EM e F-5FM, além do Esquadrão Orungan, com os P-3AM Orion, e o Esquadrão Puma, com helicópteros H-36 Caracal.

Onde os militares voaram mais
Por outro lado, a Base Aérea de Anápolis, sede do 1º Grupo de Defesa Aérea, equipado com caças F-39E Gripen, e do Esquadrão Zeus, com os aviões multimissão KC-390 Millenium, registrou um saltou de 21% na movimentação de aeronaves militares entre 2024 e 2025. Foram, no total, 4.660 pousos e decolagens, quantitativo que também inclui aviões e helicópteros de outras unidades militares que tenham passado pela base goiana.
Outro aeródromos também registraram aumento de atividade militar. É o caso de Recife (10%), Bacacheri-Curitiba (6%), Belém (2%), Pampulha-Belo Horizonte (5%), Cuiabá (10%), São Luis (7%), Sorocaba (8%) e Foz do Iguaçu (10%), dentre outros. O aeroporto de Porto Alegre registrou um aumento de 104% da atividade militar em 2025, chegando a 1.873 movimentos aéreos, porém, vale destacar que o local passou por interdição em 2024, por conta de enxurradas.
Important lembrar que estes números englobam não apenas a Força Aérea Brasileira, mas também os meios aéreos da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro, além de eventuais aeronaves de países amigos.
Queda no número de horas de voo
Apesar das elevações pontuais, a queda do número de pousos e de decolagens condiz com a realidade que o Comando da Aeronáutica apresentou, em setembro passado, durante audiência pública no Congresso Nacional. O Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo, apresentou números que mostram que o déficit anual obrigou a uma redução de quase a metade das horas de voo e do número de aeronaves em serviço.

Conforme os dados apresentados pelo oficial-general, em 2014, ano da Copa do Mundo, quando a FAB precisou realizar missões de defesa aérea em todas as sedes do evento, foram registradas 155 mil horas de voo. Em 2015, o número já caiu para 128 mil. Porém, o cenário permaneceu em queda, chegando a 97 mil horas em 2024 e uma previsão de fechar 2025 com 80 mil horas. A única elevação no período foi uma discreta subida de 113 para 119 mil horas de voo, entre 2021 e 2022. Em seu slide, ele apresentou ainda fotos de oficiais aviadores que deixaram a vida militar por carreiras civis.
Em termos de frota, o cenário não é diferente: em 2014, havia 526 aeronaves em condições de voo na Força Aérea Brasileira. No fim de 2024, dez anos depois, o número já havia caído para 359. E para 2025 o planejamento é finalizar com 319, entre aviões de caça, helicópteros, treinadores, etc. Não foi detalhado, na audiência pública, quais aeronaves mais foram afastadas de serviço, porém, ilustrações mostravam fotos dos T-27 Tucano e F-5EM Tiger II.

O trabalho de patrulhamento aéreo nas fronteiras com os A-29 Super Tucano, necessário para impedir crimes como o tráfico de drogas, esteve ameaçado por falta de recursos. O militar apresentou dados de 2021 a 2024, além das projeções de 2025 até 2033. Em nenhum ano o total investido chega ao investimento necessário. O cenário mais crítico foi em 2021, quando havia necessidade de R$ 309 milhões, mas o governo desembolsou R$ 120 milhões. A situação menos grave foi em 2024, quando a disponibilidade de recursos foi de R$ 142 milhões, frente a uma necessidade de R$ 210 milhões. Os números anteriores foram corrigidos pelo IPCA do período para permitir a comparação.
A falta de recursos disponíveis já afeta, inclusive, os novos programas. No caso da aquisição de caças Gripen, as renegociações têm aumentado o custo relativo das aeronaves. Já no caso do KC-390, além do corte de 28 para 19 aeronaves, realizado durante o governo federal anterior, a renegociação de prazos tem atrasado o cronograma.
PEC garantiu investimentos de 30 bilhões
A audiência pública ajudou a assegurar a aprovação da Lei Complementar 221/2025, já sancionada no fim de novembro pelo presidente Lula. De autoria do senador Carlos Portinho (PL-RJ), o texto cria uma exceção no arcabouço fiscal para acomodar investimentos das Forças Armadas: R$ 5 bilhões por ano, nos próximos seis anos (a partir de 2026), fora do limite de gastos orçamentários, totalizando R$ 30 bi. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) foi relator do projeto, aprovado pelo Senado em outubro. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 3 de novembro, na forma do PLP 204/25, tendo como relator o deputado General Pazuello (PL-RJ)..
A proposta uniu deputados e senadores da oposição e da base governista, tendo sido aprovada com grande margem. Foi garantido, inclusive, a tramitação em regime de urgência nas duas casas. Porém, houve parlamentares que foram contra o projeto de lei, criado especificamente para investimento nos projetos estratégicos, como aquisição de caças Gripen e construção de submarinos.

No Senado, votaram contra: Eduardo Girão (NOVO/CE), Cleitinho (Republicanos/MG), Rogério Marinho (PL/RN) e Wilder Morais (PL/GO). Na Câmara, votaram contra: Any Ortiz (Cidadania/RS), Delegado Palumbo (MDB/SP), Newton Cardoso Jr (MDB/MG), Adriana Ventura (NOVO/SP), Gilson Marques (NOVO/SC), Luiz Lima (NOVO/RJ), Marcel van Hattem (NOVO/RS), Ricardo Salles (NOVO/SP), Carlos Jordy (PL/RJ), Daniel Freitas (PL/SC), Delegado Ramagem (PL/RJ), Dr. Jaziel (PL/CE), Junio Amaral (PL/MG), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL/SP), Zé Vitor (PL/MG), Rafael Fera (Podemos/RO), Evair Vieira de Melo (PP/ES), Duarte Jr. (PSB/MA), Pedro Paulo (PSD/RJ), Adolfo Viana (PSDB/BA), Aécio Neves (PSDB/MG), Daniel Trzeciak (PSDB/RS), Geraldo Resende (PSDB/MS), Paulo Alexandre Barbosa (PSDB/SP), Vitor Lippi (PSDB/SP), Kim Kataguiri (UNIÃO/SP), Nicoletti (UNIÃO/RR), Douglas Viegas (UNIÃO/SP), Paulo Azi (UNIÃO/BA) e Lafayette de Andrada (Republicanos/MG).
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