Ações de Trump acendem alerta para indústria aeroespacial

Países com política industrial forte adotam medidas para favorecer setores estratégicos para as suas economias, como é o caso da indústria aeroespacial. O Brasil, por exemplo, financia aeronaves da Embraer via BNDES para clientes externos. Já os Estados Unidos fazem grandes compras de projetos militares e capitalizam o setor, além de também oferecer financiamentos. Comportamentos semelhantes são vistos na Europa, China e Rússia e outros países. Ações recentes do governo de Donald Trump contra Canadá, China e Brasil, porém, acendem um alerta para um novo nível de intervenção econômica.

No caso brasileiro, conforme revelado pelo jornal O Estado de São Paulo, em meio ao “tarifaço” imposto ao país, o governo dos Estados Unidos chegou a propor durante as negociações que as companhias aéreas brasileiras deveriam adquirir aeronaves da Boeing. Chama a atenção porque, no Brasil, as companhias aéreas são livres para adquirir aeronaves conforme suas próprias avaliações e negociações.

A exigência ocorreu no contexto em que a Gol, que historicamente operou uma frota constituída quase em sua totalidade por aviões Boeing, anunciou em 2026 que também passaria a voar jatos fabricados pela Embraer e pela Airbus, sem deixar sua espinha dorsal de 737. A Azul opera aviões fabricados no Brasil (Embraer) e Europa (Airbus e ATR), além de duas dúzias de monomotores Cessna, fabricados nos EUA, sem a Boeing fazer parte da frota. Já a Latam tem uma frota prioritariamente de jatos Airbus, apesar de contar com jatos Boeing 767, 777 e 787, incluindo uma encomenda de dezenas desses últimos e de outras dezenas de jatos fabricados pela Embraer.

Vale ressaltar que os E-jets, fabricados no Brasil, não são concorrentes diretos dos jatos produzidos por Airbus e Boeing, sendo inclusiv sucesso no mercado regional dos Estados Unidos. O tarifaço acabou tendo 700 exceções, incluindo aeronaves civis. Porém, ao mesmo tempo, os norte-americanos teriam tentado negociar que o Brasil removesse as “barreiras” para que jatos executivos produzidos lá, caso dos Gulfstream e Textron, tivessem acesso ao mercado brasileiro.

Trump pode ter tentado repetir com o Brasil o que disse ter conseguido na China. Após encontros com o líder Xi Jinping, em maio, o mandatário dos Estados Unidos comemorou em entrevista que o país asiático concordou em comprar 200 jatos da Boeing. Trump disse que seriam “dos grandes”, sem especificar o tipo. Ainda assim, as ações da fabricante caíram naquele dia, pois havia a expectativa do mercado de que a venda seria ainda maior, em um cenário de pessimismo de uma crise prolongada, iniciada ainda antes da pandemia, principalmente por conta de falhas no projeto do 737 Max e de atrasos contínuos do 737 Max 10 e do 777X, este último já próximo de oito anos atrasado em seu cronograma original de lançamento.

Por fim, no caso do Canadá, a pressão da Casa Branca é por conta dos jatos executivos. Trump acusa o Canadá de adiar propositadamente a certificação de aeronaves da Gulfstream, a fim de promover a canadense Bombardier. Por esse motivo, disse em rede social que iria impedir a venda dos jatos produzidos no país vizinho. Trump exige que os jatos sejam fabricados dentro dos Estados Unidos. A proibição pode atrasar até os projetos dos aviões de inteligência militar E-11A Battlefield Airborne Communications Node (BACN) e ME-11B High Accuracy Detection and Exploitation System (HADES), ambos com uso da célula do Bombardier Global Express 6500.

Humberto Leite

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