AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

Bayraktar e Shahed: os improváveis heróis na guerra da Ucrânia

Bayraktar TB2

Quando a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, analistas militares de vários países se prepararam para obter dados sobre o desempenho das mais avançadas e conhecidas tecnologias bélicas russas e dos Estados Unidos e seus aliados, que equipariam as forças de Kiev. Esperava-se um embate entre produtos badalados em feiras militares e alvo de investimentos bilionários. O passar dos meses, porém, viu a guerra aérea sobre a Ucrânia ter o protagonismo tecnológico de dois países cujos produtos militares muitas vezes causam ceticismo, mas que agora ganharam alta credibilidade graças ao desempenho dos seus drones de combate.

Um deles é o Irã. Motivo de desconfiança ou mesmo chacota dos seus produtos, o país se revelou um dos mais estratégicos fornecedores para a Rússia, ao ponto de alterar a estratégia de Moscou. Em agosto, depois de falhar na tentativa de ocupar a Kiev e já precisando retroceder na invasão, as forças russas passaram a contar com drones Shahed-131 e Shahed-136. Com as novas designações Geran-1 e Geran-2, e só em novembro com suas exportações admitidas por Teerã, essas aeronaves remotamente pilotadas ganharam função estratégica, ao se mostrarem ideais para ataques à infraestrutura energética ucraniana, realizados partir de outubro.

Drones Shahed

Equipados com ogivas de até 50 quilos, os Shahed-131 e Shahed-136 são empregados na destruição, de maneira precisa, de componentes considerados vitais. Ainda que haja informações que os russos teriam recrutado funcionários envolvidos na instalação do serviço de fornecimento de energia da Ucrânia desde os tempos soviéticos, e assim ter conseguido determinar alvos com precisão, a capacidade dos drones iranianos de destruírem componentes selecionados com precisão tem sido elogiada. Por isso, hoje são alvos prioritários para os poucos caças ucranianos ainda em voo e para os sistemas de defesa antiaérea.

E aí está outro trunfo da Rússia obtido com os drones iranianos. Enquanto sistemas antiaéreos como US National Advanced Surface-to-Air Missile System (NASAMS), Aspide, Iris-T, Crotale, SA-8 e Hawk custam pelo menos 400 mil dólares por disparo, podendo superar a marca de um milhão, cada Shahed sai por pouco mais de 20 mil dólares. O governo de Volodymyr Zelensky sustenta que pelo menos duas mil unidades teriam sido vendidas pelo Irã para a Rússia, o que seria suficiente para danos significativos às estruturas físicas ucranianas, além de enorme prejuízo aos cofres do país e dos seus aliados. A opção de enfrentamento mais barata, como a antiaérea baseada em canhões, mais notadamente com os sistemas da era soviética ZSU-23 e alemão Gepard, têm se revelado ineficazes, com saraivadas de tiros seguidas costumeiramente por um inevitável lançamento de um míssil.

Presidente da Ucrânia e drone abatido

Com formato em delta e impulsionado por um motor de combustão interna do tipo wankel, sem pistões, o Shahed-131 se destaca pela manobrabilidade e pela navegação baseada tanto em satélites da rede Iridium quanto sistemas inerciais. Seu alcance de 900 km o equipara a mísseis de cruzeiro. Já o Shahed 136 poderia ser lançado a mais de 2.000 km. Com um motor tradicional a pistão Mado MD-550, com quatro cilindros, pode levar uma carga útil maior, de 50kg de explosivos. A principal diferença visual entre os dois está na ponta das asas: o Shahed 131 tem estabilizadores voltados para cima, enquanto no 136 a superfície também se projeta para baixo.

Shahed abatido na Ucrânia

São drones de pequeno porte. A envergadura é de dois metros no Shahed 131 e de 2,5m no 136. Nenhum dos dois passa dos 200 kg no momento da decolagem e a velocidade também é inferior a 200 km/h. Isso significa que, seja na busca radar ou visual, ambos são extremamente difíceis de serem localizados. Há, ainda, indícios de que os modelos tenham a bordo tecnologia para se preservar de tentativas inimigas no campo da guerra eletrônica.

Os ucranianos têm tentado combater a ameaça de diversas formas, desde disparos com armas de soldados até por meio de caças. Neste caso, há fontes que indicam que o MiG-29 acidentado em Vinnystsia em 13 de outubro teria caído durante uma tentativa de abater um Shahed 136. Há quem indique até que o drone se autodestruiu e a explosão causou danos irreversíveis ao caça.

Shahed capturado pela Ucrânia

O sucesso na Ucrânia desperta expectativas sobre o futuro dos drones produzidos no Irã. Do ponto de vista operacional, já há relatos sobre prováveis usos na Síria e no Curdistão. A provável presença no Iêmen e em outros locais onde há aliados do Irã desperta atenção dos países rivais, como Israel. Outros modelos já apresentados por Teerã, como o Shahed 149 Gaza, de porte parecido com o norte-americano Predator, começam a ser vistos como ameaças mais efetivas do que inicialmente se pensava.

Um drone pop

Na luta contra os fascistas, os italianos criaram a canção Bella Ciao. Para enfrentar os nazistas, os franceses compuseram Le Chant des Partisans. Ao enfrentarem as tropas britânicas, os irlandeses cantaram SAM Song. E agora, no combate contra os russos, ucranianos também têm sua canção: chama-se Bayraktar, um bem-humorado folk composto pelo soldado Taras Borovok, lançado em 1º de março, logo após a invasão.

O nome é uma homenagem aos drones turcos adquiridos pela Ucrânia ainda antes da guerra, e que tem sido apontado pela própria imprensa do país como decisivos nos combates. Em turco, aliás, Bayraktar, significa “Porta Bandeira”. Também é o sobrenome dos irmãos Haluk Bayraktar e Selçuk Bayraktar, engenheiros e empresários que se tornaram respeitados em seu país pelo desenvolvimento de tecnologias, apesar da relativamente pouca idade, 44 e 43 anos. Selçuk, aliás, até virou genro do presidente Recep Tayyip Erdoğan.

Bayraktar TB2

Bayraktar denomina uma família de drone produzidos pela empresa Baykar. O modelo admirado na Ucrânia é o TB2. Com velocidade máxima de 220 km/h e autonomia de 27 horas, pode levar uma carga útil de até 150 kg, incluindo câmeras ou armamentos como bombas guiadas, mísseis e foguetes. Tem 12 metros de uma ponta da asa à outra e um motor simples, de 100 hp, movido a gasolina. Seu peso máximo de decolagem é de 700 kg.

O Bayraktar TB2 ganhou fama agora, mas não era bem uma novidade. Voou pela primeira em 2014 (quando os irmãos Bayraktar tinham 36 e 35 anos) e já acumulava mais de 400 mil horas de voo antes dos primeiros disparos entre russos e ucranianos, incluindo ações contra guerrilheiros realizadas pela Turquia, pela Etiópia e pelo governo reconhecido da Líbia, e uma destacada ação do Azebaidjão durante o conflito contra a Armênia, em 2020. Catar, Turcomenistão, Marrocos, Quirquistão e Somália também já eram operadores do TB2 antes do conflito russo-ucraniano o levar para as notícias internacionais.

Bayraktar TB2

A própria Ucrânia já havia utilizado o TB2 em missões reais. Sabe-se que as primeiras unidades foram recebidas em 2019 e que em outubro de 2021 foi realizado um ataque pioneiro contra forças separativas na região do Donbass. Em 24 de fevereiro de 2022, quando as primeiras forças russas invadiram o território, havia de 20 a 36 TB2 operacionais. Pelo menos 50 novas entregas foram realizadas desde então, incluindo uma unidade comprada com recursos de doações de cidadãos da Lituânia.

Boa parte da fama do Bayraktar na Ucrânia se deve à extensa coletânea de vídeos de explosões de blindados (e de soldados) russos. Entre as ações alegadamente de maior sucesso, então a destruição de um helicóptero Mi-8 e de todo o pelotão que desembarcava na Ilha das Cobras, onde um pequeno número de ucranianos havia respondido com um palavrão à ordem de um navio de guerra russo para que deixassem o local, logo no início do conflito. Um TB2 também teria sido decisivo para enganar as defesas do cruzador Moskva, atingindo por mísseis R-360 Neptune e posteriormente afundado.

Outros países querem seguir o mesmo caminho. Paquistão, Ruanda, Togo, Djbouti, Burkina Faso, Níger, Nigéria e Polônia, este último país-membro da OTAN, receberam seus TB2 ao longo de 2022. A maioria havia adquirido ainda antes da guerra, mas o que seriam aquisições quase discretas se tornaram eventos midiáticos. A Romênia, outro membro da OTAN, anunciou que irá adquirir o modelo. A Indonésia discute a compra.

Bayraktar com armamento

A Baykar aproveita para ganhar mercado com outros modelos. Em novembro, foram iniciados os testes do Kizilelma, um modelo de combate com características stealth. Há a expectativa de uma carga bélica de até 1,5 tonelada e, dependendo das condições, voo a Mach 1. Também é prevista uma versão naval, com decolagem com uma rampa do tipo “ski jump”, sendo uma alternativa para países sem condições de manter um porta-aviões.

Outro modelo já em venda é o Akynji, com 20 metros de envergadura, autonomia de 24 horas, velocidade de cruzeiro de 150 nós e peso máximo de decolagem de 5,5 toneladas. O Akynji pode levar sensores óticos, pods de guerra eletrônica, um radar do tipo AESA e antenas para controle por satélite.

O sucesso da Bayraktar é tão grande que a propaganda espontânea acontece agora antes mesmo dos voos. No dia 12 de outubro, o chefe do comitê de segurança nacional do Quirguistão, Kamchibek Tashiev, publicou na sua conta pessoal do Facebook fotos suas na sede da empresa turca. A ex-república soviética tem enfrentado seu vizinho Tajiquistão em disputas fronteiriças, com embates que já deixaram centenas de mortos, e agora espera fazer a diferença com os drones.

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