Começou hoje a campanha de ensaios em voo do Falcon 10X, novo jato executivo da Dassault. A aeronave decolou às 11h10 (horário local) da pista 23 de Bordeaux-Mérignac sob comandos dos pilotos de ensaios Sébastien Dupont de Dinechin e Fabrice Dougnac.
O primeiro voo chamou a atenção pelas capacidades já atingidas. Diferentemente do que ocorre com muitos projetos, quando há voos curtos, muitas vezes sem sequer recolher os trens de pouso, o Falcon 10X foi a até 12 mil metros e chegou a atingir uma velocidade de Mach 0,82, cerca 907 km/h. O voo também foi relativamente longo, com o pouso ocorrendo às 13h40.
A Dassault Aviation informou ser o único fabricante de aeronaves do mundo a voar uma aeronave totalmente nova em 2026. Além disso, informou que outros dois Falcon 10X já estão em construção, sendo o segundo para se juntar à campanha de ensaios em voo e um terceiro para testes de funcionalidade e confiabilidade dos sistemas.

Nova geração
O Falcon 10X promete ocupar um novo nicho no mercado. A principal diferença frente aos jatos de geração anterior é o tamanho: estamos tratando aqui do avião executivo com a maior cabine já criada para a sua categoria. O comprimento é de 16,4 metros e a largura máxima chega a 2,77 metros. É praticamente um apartamento. A altura de 2,03 metros dá conforto até para jogadores de basquete. Os dois principais concorrentes, o Bombardier Global 7500 e o Gulfstream G700, acabam pequenos na comparação de altura.
Esses números gerais têm ficado em menor destaque nas propagandas que a Dassault faz do Falcon 10X. O slogan é bem direto: “More than bigger. Better”, isto é, mais que maior, melhor. Os 78,3 metros cúbicos de espaço interno, com o já citado sistema de ventilação independente para quatro ambientes distintos e a iluminação natural obtida por meio de 38 janelas largas, dão uma série de possibilidades de configurações.
O número padrão de poltronas parece até limitado: oito. Porém, são adicionadas opções como “sala de jantar”, “home cinema” e suíte com cama de 152 cm de largura, uma verdadeira cama de casal queen size. Em uma configuração “noturna”, além dos dois ocupantes deste espaço, é possível ter mais três camas de solteiro e uma de casal. São dois lavatórios, sendo que o da suíte pode incluir chuveiro. Naturalmente, caberiam muito mais poltronas, mas não é o foco de um projeto como o Falcon 10X, ainda que seja possível.
A possibilidade de personalização é o destaque. Um espaço pode ser destinado, por exemplo, a ser um “centro de mídia”, onde o baixo ruído e a privacidade podem permitir realizar entrevistas. Na “sala de jantar”, o espaço interno permite que as poltronas sejam acessíveis de maneira independente, sem ser necessário pedir licença para sair, por exemplo.

Desempenho superior
O Falcon 10X tem um desempenho também destacado. Isso envolve, por exemplo, voar a 85% da velocidade do som, com oito passageiros e quatro tripulantes, e chegar a até 13.890 km de distância, já contando com as margens de segurança de combustível. Se necessário, é possível voar a Mach 0,925. Isso é mais rápido que os A-4 Skyhawk da Marinha do Brasil, sendo comparável ao desempenho de um A-1 AMX, de um clássico Hawker Hunter ou de um MiG-17.
Não é só poder voar de São Paulo para qualquer capital das Américas, da Europa, da África, do Cáucaso ou do Oriente Médio. É um alcance global: é poder voar de São Paulo ao Paquistão ou à Nova Zelândia, sem escalas. Se preferir, dá para chegar ao Taiti. Só o Japão, Austrália, Índia, China e Sudeste Asiático demandam uma única escala.
Talvez o que mais impressione no novo jato executivo da Dassault, que deve ter as primeiras entregas ainda nesta década, é a possibilidade de viajar sem parecer uma viagem. Se o jato estiver a 41 mil pés, cerca de 12.490 metros, o sistema de pressurização garante a sensação de estar a 3.000 pés, cerca de 914 metros. Isso é como estar em Brasília (DF). Um pouco mais baixo, na realidade.
Não há sonolência, dor de cabeça ou outros sintomas. Para fins de comparação, a maioria dos jatos comerciais da atualidade mantém suas cabines com uma pressurização de oito mil ou seis mil pés, algo entre 1.800 e 2.500 metros. O desempenho do Falcon 10X somente é possível por meio de uma estrutura física capaz de resistir à enorme diferença de pressão atmosférica externa e interna.

Desenho de asa
Vale ressaltar que a aeronave não é um mero “Falcon 8 alongado” ou algo do tipo. Desde o início, foi criado um projeto completamente novo, com destaque para as asas em material composto, cuja fabricação ocorre em uma nova unidade industrial em Anglet, na França, utilizando tecnologias semelhantes às aplicadas na fabricação de jatos de combate. A montagem final fica em Bordeaux-Mérignac, onde também são concluídos os caças Rafale.
Esse novo projeto de asa combinou algumas características excludentes para projetos mais antigos. Por exemplo: ao mesmo tempo em que o Falcon 10X pode voar a uma velocidade próxima a Mach 1 com eficiência de uso de combustível, também tem características aerodinâmicas para permitir boa controlabilidade mesmo a baixas velocidades, o que resulta em aproximações mais lentas para pouso. Destaque para a presença de quatro slats, seis spoilers e dois flaps de cada lado, o que garante uma flexibilidade aerodinâmica significativa.
Chamadas de hipersustentadores, essas soluções de engenharia permitem acessar pistas mais curtas com segurança. Na prática, torna possível a operação em aeroportos como o London City, no centro da capital britânica e preferido do mundo da aviação executiva internacional. Naturalmente, isso vale para outras pistas de pequenas dimensões, como ocorre em diversas localidades brasileiras onde por vezes até há pistas asfaltadas, mas as rotas comerciais são ausentes.
Há outra herança da aviação de caça: o modo de recuperação automático, sendo o Falcon 10X o único avião da sua categoria a prever essa tecnologia. Integrado ao sistema digital de controle de voo, o modo de recuperação automática permite estabilizar a aeronave de qualquer movimento anormal, incluindo um improvável voo invertido, ao simples toque de um botão.

A cabine de comando segue outra filosofia da aviação de caça: o conceito conhecido como HOTAS, sigla inglesa para Hands-On-Throttle-And-Stick. Isso quer dizer que os pilotos podem comandar a aeronave com as mãos no manche e no controle de velocidade, valendo-se ainda de dois Head Up Displays (HUDs), com simbologia adaptada dos caças Rafale, para enfrentarem determinadas fases do voo sem sequer precisarem tirar as mãos dos controles ou baixar a cabeça para ver os instrumentos.
O comando dos motores também traz tecnologias do Rafale, que é bimotor. O Smart Throttle conecta digitalmente os dois motores, exercendo comando preciso da potência e dos parâmetros de funcionamento de acordo com a fase do voo. Destaque para um modo de “arremetida suave” (soft go around), que ao mesmo tempo reduz a carga de trabalho da tripulação nessas ocorrências e, dentro do possível, suaviza a experiência para os passageiros. O principal destaque, porém, é para a improvável, mas não impossível, situação de falha de um dos motores, incluindo em situações críticas, como durante a decolagem.
Cabine do século XXI
Os Head Up Displays são apenas detalhes quando se conhece a fundo toda a tecnologia embarcada no Falcon 10X. O cockpit tem a suíte NeXus, que se vale de telas touchscreen e uma linguagem simples para procedimentos, incluindo automação de acordo com a necessidade. Por exemplo: em caso de pane, o checklist aparece automaticamente na tela e os itens somem tão logo os pilotos realizam os procedimentos.

Outro sistema a ser comentado é o FalconEye. Trata-se de um equipamento que combina a apresentação dos HUDs com uma visão sintética, incluindo informações como a rota a ser seguida. Isso ajuda principalmente em situações de baixa visibilidade, sendo útil para aproximações e pousos mesmo em condições meteorológicas bastante precárias, desde que os pilotos estejam certificados para esse tipo de procedimento.
O Falcon 10X também traz o FalconScan, já disponível no 6X. Trata-se de um sistema de autodiagnóstico que avalia mais de 100 mil parâmetros da aeronave e provê atualizações em tempo real para as equipes de manutenção. Um sistema de inteligência artificial executa um algoritmo para previsão de falhas futuras.










