AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA DOS ARQUIVOS DE ASAS

Há 65 anos, a ameaça nuclear dava um novo salto

Há exatos 65 anos, em 11 de novembro de 1956, a tensão de um eventual conflito nuclear entre Estados Unidos e União Soviética ganhava um novo tom. Naquele dia, voava pela primeira vez o B-58 Hustler. A aeronave desenvolvida pela Convair se tornaria o primeiro bombardeiro do mundo capaz de atingir Mach 2.

Seu projeto era audaz: invadir o espaço aéreo inimigo a toda velocidade levando uma única bomba termonuclear. Apesar do ceticismo, a Convair conseguir cumprir os pré-requisitos, com soluções envolvendo uma asa em delta com 143,3 metros quadrados de área, quatro motores General Eletric J79 (semelhantes aos utilizados pelos caças F-4 Phantom II, que utiliza dois deles) e o uso intenso de novos materiais, com o alumínio em estruturas do tipo favo de mel.

Os três tripulantes, sendo um piloto, um navegador/bombardeiro e um operador de sistemas de defesa, sentavam em uma atípica configuração de três cockpits em tandem, todos pressurizados, com ar-condicionado. Melhorias subsequentes incluiriam a possibilidade de ejetar a 21.000 metros de altura e velocidade de Mach 2 graças a uma cápsula.

O ambiente, considerado por muitos como claustrofóbico, era também desafiador: enquanto o piloto precisava lidar com características de voo nada fáceis, os demais tripulantes tinham que dominar novas tecnologias, como sistema de navegação inercial KS-39 Star Tracker, radar doppler AN/APN-113 e o sistema de bombardeiro e navegação AN/ASQ-42. O sistema de defesa incluía ferramentas de guerra eletrônica e um canhão de 20mm operado eletronicamente, virado para a ré.

O B-58 estabeleceu 19 recordes mundiais de velocidade. Em 1963, uma aeronave voou de Tóqui a Londres, uma distância de 12.920 km, em 8 horas e 35 minutos, com cinco reabastecimentos em voo. A média ficou acima de 1.500 km/h. O curioso é que não se tratava de uma aeronave modificada, e sim de uma operacional, retirada diretamente de um esquadrão da United States Air Force (USAF).

Ao todo, 116 unidades foram construídas, dois protótipos (XB-58), onze de pré-produção (YB-58A) e 86 para uso operacional (B-58A), além de 17 de reconhecimento (RB-58A). Duas alas operacionais foram equipadas com o bombardeiro supersônico, cada uma delas com 39 unidades. Muito complexo para seu tempo e de pilotagem difícil, a frota teve 26 unidades perdidas em acidentes, cerca de 22,4% da produção total. E o custo operacional era estimado em até três vezes mais que o registrado pelo B-52.

Porém, o que determinou a vida operacional relativamente curta (1960-1970) foi a entrada em serviço de novos sistemas de defesa antiaéreo soviéticos, como o SA-2 Guideline, capazes de atingir alvos a elevados níveis de voos, como aconteceu no famoso incidente do jato-espião U-2. Houve a tentativa de operar os B-58 voando baixo, e até melhorias no projeto, como o aumento do leque de armamentos com uso de cabides nas asas. A USAF também fez a conversão de oito aeronaves para o modelo TB-58A, voltado para o treinamento. Porém, o mais leve, mais barato e mais confiável FB-111A já estava pronto para substituir o B-58 Hustler.