AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

OPINIÃO – O que define uma Força?

Cláudio Lucchesi
Texto originalmente publicado na coluna “Off the Record”, da Revista ASAS – Edição Nº 111

Ao longo da História, a ardilosa pergunta do título tem gerado não só postulados, mas também polêmicas, conflitos e mesmo influenciado decisivamente os resultados de batalhas, e mesmo guerras. O autor aqui gostaria de explicitar o dilema que deseja discutir – afinal, uma Força militar independente é definida por sua missão ou por seu equipamento? 

Ora, é praticamente uma unanimidade no mundo atual que as Forças Armadas de um país se subdividem em três Forças, independentes mas interoperativas e colaborativas: o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Essa última é a mais nova das três. A primeira força aérea independente e autônoma do mundo foi criada em abril de 1918, nos momentos finais da 1ª Guerra Mundial: a Royal Air Force (RAF), do Reino Unido. Atualmente, alguns países estão adotando o conceito novo de uma força militar espacial, exemplo disso sendo a Rússia, que em 1º de agosto de 2015 fez a união entre sua Força Aérea (VVS) e suas Forças Aeroespaciais de Defesa (VVKO), surgindo daí uma nova entidade, designada Forças Aeroespaciais da Rússia (VKS, Vozdushno-Kosmicheskiye Sily). 

De modo básico, as missões das três Forças tradicionais são garantir o controle, combater e neutralizar qualquer ameaça nos três macroambientes de nosso planeta: superfícies ou terrenos secos (Exército), superfícies líquidas (Marinha), e no ar, acima das superfícies (Força Aérea). No ambiente altamente tecnológico de hoje, essas divisões clássicas se superpõem e interagem entre si, além de estar intimamente conectadas, no chamado ambiente netcêntrico. Mas, as Forças mantêm suas identidades próprias e autonomia – notadamente em missões que lhes são (quase) exclusivas. Por exemplo, independente dos meios e equipamentos utilizados, a busca, localização e, se necessário, neutralização de submarinos hostis é, em quase todos os países, uma responsabilidade exclusiva de suas Marinhas. 

Nessa “identidade” das Forças repousa o nosso dilema inicial – ela se faz, se baseia, na missão central, ou no tipo de equipamento utilizado? 

Ao ser criada, em 1º de abril de 1918, a RAF de pronto recebeu todas as aeronaves militares, e o pessoal militar respectivo, tanto de voo quanto de terra, operativo, administrativo e técnico, dos então dois serviços aéreos existentes, o Royal Flying Corps (RFC, do Exército) e o Royal Navy Air Service (RNAS, da Marinha). Portanto, quando de sua criação, a RAF era definida tanto por sua missão quanto pelo equipamento – o avião. Já a Alemanha, na 1ª Guerra Mundial, combatera com sua aviação militar também dividida entre dois serviços aéreos, um do Exército (designada Fliegertruppen des deutschen Kaiserreiches, Corpo Aéreo do Império Alemão, até 1916, e dali em diante, Deutsche Luftstreitkräfte, Força Aérea Alemã) e outra da Marinha (Marine-Fliegerabteilung, Serviço de Aviação da Marinha). Com a derrota no conflito e a proibição pelo Tratado de Versalhes de possuir aeronaves de combate, a Alemanha iria recriar sua aviação militar em 1933, já sob o regime nazista do 3º Reich de Adolf Hitler. Assumindo o posto de comandante supremo da então nova Luftwaffe (Força Aérea alemã) estava um antigo ás da 1ª Guerra Mundial, Hermann Göring – também um dos mais proeminentes líderes nazistas, aliado pessoal de Hitler desde o início de sua carreira política. Decidido a garantir os melhores recursos financeiros e tecnológicos para a recém-criada Arma aérea germânica, Göring defendeu fervorosamente que “tudo o que voasse” pertencesse à Luftwaffe. Deste modo, esta cresceu e de fato se tornou, no período de 1939-1940, a mais poderosa e eficaz Força Aérea do mundo, com sua identidade calcada principalmente no equipamento (o avião), mais do que na missão – uma vez que suas tarefas abrangiam desde ligação/ esclarecimento em apoio ao Exército e patrulhas marítimas, em suporte da Marinha (Kriegsmarine), até aquelas “tradicionais” de uma Força Aérea, como a defesa do espaço aéreo de seu país. 

Se a atitude de Göring de fato garantiu à Luftwaffe uma posição privilegiada nos planos do rearmamento alemão na década de 1930, ao se iniciar a guerra a concentração de tão diversas missões numa única Arma inevitavelmente levou a um estresse nas capacidades tanto operativas quanto logísticas desta Força, comprometendo a sua capacidade. 

No caso das missões em apoio à Kriegsmarine, como as de combate antissubmarino, ataques antinavio e patrulha/esclarecimento, não há dúvida que foram sempre muito aquém das necessidades dessa, de fato comprometendo o resultado de suas operações. Houvesse a Marinha alemã contado com uma aviação forte de apoio às suas missões, a vitória na Batalha do Atlântico sem dúvida teria exigido mais recursos dos Aliados, levado mais tempo, e assim comprometido o cronograma de outras operações, como o próprio Dia D. 

A exclusividade de um meio (aviação) a uma única Força (a Luftwaffe), com certeza comprometeu o desempenho macro de todas as Forças Armadas alemãs (a Wehrmacht) na guerra. 

Aqui um ponto importante comparativo – falamos da criação da RAF, a primeira Força Aérea, pela fusão do RFC e do RNAS numa nova e autônoma Arma, o que pode dar a impressão de que isso se deu pela “identidade” da RAF com um meio, o avião. Mas não foi isso. A RAF foi criada em resposta ao fracasso dos dois serviços aéreos em defender os céus de Londres contra os ataques aéreos diurnos alemães no verão de 1917, compreendendo-se a necessidade de uma Força única e coesa para garantir a defesa do espaço aéreo britânico. Ou seja, a RAF foi criada em função da missão. 

Em 1924, a aviação naval britânica era recriada na forma do Fleet Air Arm (FAA, Arma Aérea da Frota), de início subordinada à RAF, mas pouco depois, em 1939, transferida integralmente à Marinha britânica (Royal Navy).

Em comparação ao fracasso geral das operações da Luftwaffe em apoio à Kriegsmarine, é notável os sucessos absolutos e decisivos obtidos tanto pela FAA quanto pela Aviação Naval norte-americana no conflito mundial – ambas subordinadas às suas respectivas Marinhas. No caso da última, não seria exagero dizer que a aviação da US Navy (USN, Marinha norte-americana) quase que “venceu sozinha” a Marinha Imperial japonesa, no Pacífico. Hoje, a se observar a organização das mais importantes Forças Armadas do mundo, é explícito que o definidor de uma Força é sua missão, ficando o equipamento utilizado em subordinação de tudo o que for necessário ao cumprimento dessa. Não sem motivo, o Corpo de Fuzileiros norte-americano (USMC) possui tropas, blindados, aeronaves e embarcações próprias, tudo em função da missão dessa Força. 

E este autor não considera que a economia de custos justifique a exclusividade de meios, uma vez que a Força detentora desses terá de desdobrá-los em atendimento a outras Forças, gerando custos e, pior, comprometendo a eficácia operacional não apenas de si mesma (pelo “desvio de fins”) quanto daquelas a quem irá prover suporte (pois esse dificilmente atingirá os patamares necessários). Pode-se, sim, buscar economia no compartilhamento de tarefas comuns e sem especificidade, como a instrução básica de pilotos, formação de pessoal técnico de aviação, serviços de manutenção e outros – levando-se em conta que muitos desses, em diversas nações, têm sido transferidos a empresas privadas, numa prática que vem se mostrando também bastante interessante.

O autor

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