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35 anos da tragédia de Ramstein

Registro do momento do acidente em Ramstein. Foto: Marc Heesters

Cerca de 300 mil pessoas estavam naquele domingo, dia 28 de agosto de 1988, de olho na apresentação da Frecce Tricolori, o Esquadrão de Demonstração Aérea da Força Aérea Italiana. O local era a Base Aérea de Ramstein, na Alemanha. De repente, a manobra “coração flechado” acabou com a colisão de três MB-399. Setenta pessoas morreram e cerca de 500 pessoas ficaram feridas.

Tudo o que poderia dar errado naquele dia, deu. Primeiro, o público foi posicionado em uma área inadequada: um dos aviões caiu exatamente sobre as pessoas, espalhando combustível e provocando um enorme incêndio. Outro causou pior sorte: atingiu exatamente o helicóptero UH-60 Black Hawk que seria usado para eventuais emergências.

As investigações revelaram erros críticos das equipes de resgate. Apesar de ser na Alemanha, Ramstein era uma base norte-americana. Por dificuldades de diálogo entre autoridades, depois da tragédia as ambulâncias locais tiveram que esperar minutos preciosos na entrada da base.

O mais emblemático foi um ônibus que, quase três horas depois, chegou ao hospital de Ludwigshafen cheio de pessoas queimadas que ainda estavam sem atendimento. E o motorista, sem a companhia de nenhum paramédico, não conhecia a cidade nem falava alemão.

Até dentro dos hospitais ocorreu um problema que até então ninguém havia imaginado: os acessos intravenosos usados pelos militares norte-americanos na base eram incompatíveis com os cateteres usados pelos alemães nos hospitais.

E o que causou a tragédia?

Foi o erro (?!) de um único piloto. A Frecce Tricolori havia decolado às 15h40, horário local. Uma das primeiras manobras seria o “coração flechado”. Parece muito com o “coração” da Esquadrilha da Fumaça, mas com 2 diferenças: a primeira é que são mais aeronaves, cinco de um lado, e quatro do outro. A segunda é que no momento em que a figura vai se fechar, o caça solo passa em alta velocidade para “flechar” o coração.

E foi aí o problema.

O Tenente-Coronel Ivo Nutarelli, na época com 38 anos, tinha no currículo 4 mil horas de voo, incluindo caças F-86 e F-104 Starfighter, e quase oito anos de Frecce Tricolori, sendo os dois últimos como o solista. No dia do acidente, porém, fez o “cruzamento da flecha” mais baixo e mais rápido que o combinado. A colisão aconteceu às 15h44, quatro minutos após a decolagem.

O MB-339 de Nutarelli atravessou a parte traseira do avião líder da formação que “fechava o coração” à esquerda. Era a aeronave do Tenente-Coronel Mario Naldini, que começou a girar fora de controle e assim também atingiu MB-339 pilotado pelo Capitão Giorgio Alessio.

O avião de Nutarelli teve toda a sua seção frontal destruída já na colisão. O jato virou uma bola de fogo e caiu sobre o público, espalhando combustível. O MB-339 de Naldini caiu sobre a pista, destruindo o H-60 que estava próximo. Ele foi o único a tentar ejetar, mas morreu ao impactar o solo. A terceira aeronave, do Capitão Alessio, caiu rapidamente no solo, ao lado da pista, virando uma bola de fogo.

Todo o acidente, desde a primeira colisão até os impactos em solo, durou menos de 7 segundos. As aeronaves estavam a meros 45 metros de altura. O avião de Nutarelli atingiu em cheio o público que acompanhava o show aéreo naquela que era considerada a melhor posição para os espectadores. Como era o início da apresentação, o MB-339 ainda tinha muito combustível, o que causou o incêndio, principal fator para o elevado número de feridos.

Até hoje, a família do Tenente-Coronel Ivo Nutarelli defende que o piloto não foi responsável. Foi comprovado por imagens que, antes da colisão, seu trem de pouso começou a ser baixado, uma possível tentativa desesperada para reduzir a velocidade no último momento. Porém, nada indica que isso poderia ter ocorrido voluntariamente ou por uma pane. Completamente destruída, a aeronave não deixou muitos elementos para a investigação.

Uma teoria da conspiração ganhou força na Itália. Os dois pilotos inicialmente envolvidos no acidente, Ivo Nutarelli e Mario Naldini, tiveram uma participação ainda hoje não explicada em uma outra tragédia, chamada de “O Massacre de Ustica”.

Em 27 de junho de 1980, um DC-9 da empresa Itavio caiu próximo à ilha de Ustica, matando todos os seus 81 ocupantes. Até o ex-presidente italiano Francesco Cossiga atribuiu a explosão a um míssil. Naquela noite, os dois pilotos italianos que futuramente iriam para a Frecce Tricolori estavam juntos a bordo de um caça TF-104 Starfighter e fizeram, mais de uma vez, alertas sobre “segurança aérea”. Até hoje não se sabe publicamente o porquê dos alertas.

A Frecce Tricolori até hoje é uma das principais unidades de demonstração aérea no mundo, sendo um orgulho da Itália

 

O fato confirmado é que depois do acidente de Ramstein houve mudanças nos regulamentos sobre shows aéreos, especialmente sobre a localização do público. Mesmo assim, a tragédia de Ramstein ainda foi superada, em termos de vítimas, por um outro acidente em show aéreo. Em 27 de julho de 2002, um Sukhoi Su-27 da Força Aérea da Ucrânica caiu durante um show aéreo em Sknyliv: 79 pessoas morreram e 543 ficaram feridas.

A banda de metal alemã Rammstein (Com duas letras “m”) teria tido seu nome inspirado no acidente aéreo. Depois da fama, os integrantes negaram a relação. Porém, a música “Ramstein”, gravada em 1995 no álbum de estreia, tem versos reveladores: “Rammstein / um mar de chamas / coágulos de sangue no asfalto / mães estão gritando / o sol está brilhando / nenhum pássaro canta mais / Rammstein”.

 

Sobre o autor

Humberto Leite

Comentário

  • Lembro da capa da Revista Manchete, na qual um avião em chamas avança sobre uma pessoa com uma máquina fotografia, na qual ele estava mais preocupado em registrar o que estava acontecendo, que pensando em salvar a sua própria vida.

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