Abate de F-16 há 30 anos ainda segue em contestação

A narrativa de que o F-16 seja um caça que nunca foi derrotado em combate aéreo permanece até hoje ativa por um detalhe curioso: a primeira força aérea que abateu um jato desse modelo em um “dogfight” nega o feito. Trata-se da Grécia, que há exatos 30 anos, em 8 de outubro de 1996, teria destruído um F-16D da Turquia por meio de um míssil R.550 Magic II disparado por um caça Mirage 2000EG.

O contexto foi a Crise de Imia, uma disputa por duas ilhotas desabitadas no Mar Egeu, parte de uma histórica beligerância entre Turquia e Grécia, que envolve toda a região, incluindo o Chipre. Em janeiro daquele ano, forças especiais gregas desembarcaram em uma das ilhotas, provocando uma escalada de tensão que só não resultou em uma guerra por conta da intermediação das Nações Unidas e dos Estados Unidos. Vale lembrar que Grécia e Turquia são rivais históricos, mas aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), tendo ingressado na aliança no mesmo dia: 18 de fevereiro de 1952, em um esforço diplomático para manter o equilíbrio.

Naquele 8 de outubro de 1996, contudo, parte por acaso, parte por conta das repetidas provocações mútuas, os embates acabaram levando a um desfecho inesperado para os dois lados. Os detalhes efetivos sobre a missão não são confirmados até hoje: há fontes que dizem que um par de Mirage 2000EG estava em treinamento na mesma área onde, por mero acaso, voavam dois F-16D e quatro F-4E Phantom II turco; enquanto há informações de que os caças gregos teriam sido acionados para interceptação.

Caças Mirage 2000EG da Grécia. Foto: Jerry Gunner

O fato é que houve a evasão dos F-4 enquanto os F-16 se envolveram em manobras de combate contra os Mirage 2000. Não há relatos se o disparo do míssil teria ocorrido por ordem superior ou mera decisão do piloto. Chega-se ao ponto de sugerir que o aviador do Mirage 2000, possivelmente o Capitão Thanos Grivas, queria apenas “travar” o seu sistema de armas no caça grego, disparando “por engano”. O fato é que a aeronave estava com armamento real e que existia uma efetiva tensão entre os países.

Depois da destruição do F-16D, o segundo caça do tipo teria fugido enquanto os gregos iniciaram uma missão de busca e salvamento. Com dois assentos, o F-16D era ocupado pelo Capitão Nail Erdoğan e pelo Tenente-Coronel Osman Çiçekli, que estava em instrução – possivelmente uma missão de readaptação ao tipo. As Forças Armadas gregas resgataram Çiçekli, com uso de navios e helicópteros, mas a busca por Erdoğan foi encerrada sem terem sido localizados vestígios. Com número de série 91-0023, trata-se de um avião com meros cinco anos de uso, sendo da versão Block 40, avançada para a época.

A partir daí, teria ocorrido uma “operação de acobertamento” conduzida pelos dois governos. A Grécia, longe de se vangloriar do feito, não admitiu publicamente o abate. Fez o resgate com um helicóptero AB-205 e, dias depois, enviou um C-130 Hércules para a Turquia, a fim de repatriar o Tenente-Coronel Osman Çiçekli. Publicamente, o militar disse ter sido bem tratado e agradeceu por todo o esforço dos gregos. As autoridades de ambos os países falavam abertamente em falha técnica, inclusive com o detalhe de que o jato teria começado a pegar fogo.

Em 2003, contudo, o então Ministro da Defesa da Grécia, Giannos Papantoniou, disse publicamente que a aeronave turca foi abatida por “ação” de um caça grego. Isso ajudou a disseminar outra versão do fato: de que teria ocorrido uma colisão aérea, versão que isenta o F-16 de ter sido abatido em um dogfight. No mesmo ano, um alto oficial turco identificado como Ahmet Corekci disse a um jornal local que o F-16 foi abatido e que os gregos destruíram qualquer evidência disto. Finalmente, em 2012, o ministro da Defesa da Turquia, Ismet Yılmaz, afirmou publicamente que o caça foi perdido em combate aéreo. .

As confirmações levaram a uma tentativa de judicializar o assunto, com participação da própria família da única vítima fatal do incidente. Porém, não houve avanços no caso. Nascido em 20 de setembro de 1961, Nail Erdoğan tinha 35 anos na data do incidente, sendo 16 de serviços à força aérea da Turquia. Ele deixou esposa e dois filhos.

Nail Erdogan junto a um caça F-100 Super Sabre, utilizado pela Grécia nos anos 70 e 80

Outro abate do F-16

Em 2019, durante mais um dos conflitos entre Índia e Paquistão, um F-16C paquistanês foi abatido por um MiG-21 Bison indiano. A informação, contudo, nunca foi confirmada pelo outro lado, nem encontra respaldo em fontes internacionais. Por outro lado, o F-16 tem entre 73 e 81 vitórias ar-ar confirmadas até o momento, dependendo da fonte, considerando todos os operadores do jato.

Vale destacar ainda que o F-16 confirmadamente já foi abatido por fogo antiaéreo, com pelo menos três unidades dos Estados Unidos tendo sido alcançados por mísseis do Iraque em 1991 e um F-16I abatido pela Síria em 2018. Também há outros relatos ainda em discussão, inclusive de jatos a serviço da Ucrânia que teriam sido destruídos pela Rússia na guerra atualmente em curso.

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Humberto Leite

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