AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA DOS ARQUIVOS DE ASAS

Black Hawk Down: os 30 anos da batalha de Mogadíscio

Foto: John Belman, via LinkedIn

Há exatos 30 anos, nos dias 3 e 4 de outubro de 1993, o exército dos Estados Unidos se viu desafiado por milicianos em Mogadíscio, na Somália, em uma ação que resultou na perda de dois helicópteros Black Hawk e inspiração para um dos filmes de guerra mais aclamados da atualidade: Black Hawk Down, com a versão brasileira tendo sido traduzida para Falcão Negro em Perigo. As lições aprendidas naquele conflito ressaltaram a importância de melhorar o comando e controle de operações semelhantes.

Presentes na Somália desde 1992 com o objetivo de proteger a ajuda humanitária realizada ali, as forças dos Estados Unidos lideradas pelo Major General William Garrison haviam concluído a importância de eliminar a liderança de Muhammad Farah Aydid, um dos principais líderes de milícias que atuavam na área. A operação iria além das atividades desempenhadas pela Operação das Nações Unidas na Somália II (UNOSOM II), que estava na região e não procurava conflito direto contra os clãs armados.

O plano norte-americano foi inicialmente executado com sucesso. No dia 3 de outubro de 1993, um domingo, sob o codinome Irene foi deflagrada a operação que consistia em veículos Humvees e caminhões M939 saírem da área do aeroporto de Mogadíscio, com o apoio de 18 helicópteros UH-60 Black Hawk e MH-6 Little Bird, até o hotel Olympic, no centro da cidade. Era um território identificado como de controle do clã Habr Gidr, uma das forças mais hostis da Aliança Nacional Somali, chamada pela sigla inglesa SNA. O foco era prender Omar Salad Elmi, um dos mais próximos aliados de Farah Aydid.

A operação deveria ser simples. O plano previa apenas quatro minutos de voo entre o aeroporto e o local de ação. Mesmo os veículos terrestres deveriam retornar em não mais que 30 minutos. Além de contar com a tecnologia, o plano do general Garrison confiava nas capacidades de militares das forças especiais, como a Força Delta (1st Special Forces Operational Detachment-Delta), o 7th Ranger Regiment e o 160th Special Operations Aviation Regiment, The Night Stalkers. A ação efetiva começou às 15h42, quando os primeiros Little Birds com a força Delta chegaram ao alvo, já sob fogo de armas leves.

Foto: John Belman, via LinkedIn

A reação da SNA demorou apenas dez minutos. Um dos líderes locais, Sharif Hassan Giumale, logo entendeu o que se passava e deu a ordem por rádio para que grupos armados fossem ao local e, adicionalmente, fizessem emboscadas nas rotas dos veículos dos norte-americanos. Logo em seguida, o comando da SNA interrompeu qualquer transmissão eletrônica, por temer que os norte-americanos poderiam se utilizar de recursos de guerra eletrônica. Aparelhos de alto falante foram usados intensamente com mensagens convocando a população para defender as suas próprias casas.

Fontes diversas apontam que de 1.500 a 4 mil somalis se uniram para enfrentar cerca de 160 norte-americanos. Quarenta minutos após o início das ações, o Black Hawk com código de chamada Super 61 foi abatido por um RPG-7. Às 16h40, foi a vez do Super 64 (foto abaixo), vítima do mesmo tipo de arma.

Como mostra o filme Black Hawk Down, o que houve a seguir foi uma tentativa desesperada do comando da operação mobilizar meios aéreos e terrestres para tentar resguardar a vida dos sobreviventes contra a turba armada que corria em direção aos destroços. Dois snipers da força Delta, Gary Gordon e Randy Shughart, desembarcam na área e enfrentaram um número incontável de inimigos.

O helicóptero que fez a inserção dos dois voluntários, o Super 62, tentou fazer a proteção aérea, porém também foi atingido por um terceiro RPG. O impacto foi direto no cockpit, deixando o copiloto James Yacone inconsciente. Ainda assim, o piloto Mike Goffena conseguiu, sozinho, se evadir na área e fazer um pouso de emergência em uma área segura.

Em solo, as ações de Gary Gordon e Randy Shughart para proteger a tripulação do Super 65 acabaram justificando o recebimento póstumo da Medal of Honor, as duas primeiras concedidas pelos Estados Unidos desde a Guerra do Vietnã. A atuação dos dois permitiu que o piloto do Super 64, Michael Durant, sobrevivesse e se tornasse prisioneiro dos milicianos, tendo sido libertado após negociações.

Os problemas não acabaram aí. Ao longo da noite de 3 para 4 de outubro de 1993, cerca de 90 militares dos Estados Unidos se viram cercados por forças inimigos e sem rota de fuga, mesmo com apoio aéreo. Para a tentativa de resgate, foi solicitado apoio às tropas das Nações Unidas, sendo recebido apoio de forças da Malásia e do Paquistão. Finalmente, um comboio de cem veículos, com amplo suporte aéreo, conseguiu fazer o resgate, ainda que ampliando o número de baixas.

Apesar de ter alcançado o objetivo de capturar lideranças das milícias locais, a ação é hoje vista como um caso em que a pressão por resultados práticos levou a erros, como não buscar informações de inteligência mais aprimoradas e subestimar a força inimiga. Se, por um lado, foram negados os pedidos por blindados e por pelo menos um avião AC-130, também foi menosprezado a capacidade antiaérea das milícias, sobretudo pelo fato de que na semana anterior, em 25 de setembro, um Black Hawk já havia sido atingido por um RPG e feito um pouso de emergência na base.

Grafite em Mogadíscio critica a presença dos EUA na região

A avaliação mais errônea, contudo, foi a respeito do apoio popular. Em 12 de julho daquele ano, em uma outra ação para capturar líderes da SNA, inclusive com emprego de helicópteros AH-1 Cobra, pelo menos 70 civis somalis foram mortos, incluindo idosos, mulheres e crianças. A fúria da população foi tão significativa que, nos dias seguintes, quatro jornalistas estrangeiros que estavam em Mogadíscio acabaram linchados e mortos. Quando a operação Irene foi deflagrada, o SNA sabia que contaria com o apoio da população civil. 

Em 3 e 4 de outubro de 1993, a Batalha de Mogadíscio acabou causando a morte de 315 a dois mil somalis, dependendo da fonte de informação. A maior parte foi morta pelos helicópteros AH-6 e UH-60, notadamente quando metralharam as estreitas ruas da cidade. Do lado norte-americano, foram 18 mortos, 73 feridos e um capturado, além de dois feridos do Paquistão e um morto e dois feridos da Malásia. Corpos de norte-americanos foram arrastados pelas ruas de Mogadíscio. 

A derrota política foi incontestável. O então presidente Bill Clinton ordenou o fim das operações militares na área. Há a suposição de que o próprio Osama Bin Laden tenha visto a Batalha de Mogadíscio como uma mostra da fraqueza dos Estados Unidos. 

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