AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

Carta do ex-Comandante da Aeronáutica sobre o decreto da Aviação do Exército

Embraer EMB-110 Bandeirante FAB
image_pdfimage_print

Considerações sobre o Decreto número 10.386 de 02 de junho de 2020

Tenente-Brigadeiro do Nivaldo Luiz Rossato
Comandante da Aeronáutica entre 30 de janeiro de 2015 e 4 de janeiro de 2019

Brasília, 06 de junho de 2020

Historicamente, considerando-se nossa estatura geopolítica, o orçamento militar brasileiro é inferior ao desejado pelas Forças Singulares e pelo Ministério da Defesa, como órgão responsável pelo planejamento e integração entre as Forças. Esta crônica falta de recursos é agravada pela metodologia e priorização desses recursos. Neste sentido, está sendo estudado no âmbito do Ministério da Defesa, um método novo, definido como PBC (Planejamento Baseado em Capacidades), que visa definir prioridades, mas para sua aplicação será necessário quebrar paradigmas que contrariam a cultura predominante até os dias atuais.

A falsa impressão da ausência de ameaças à nossa soberania dificulta ainda mais o atendimento das necessidades para manter a inviolabilidade do nosso território, além de outras responsabilidades, como a integração do território nacional.

LEIA TAMBÉM: Ministério da Defesa esclarece mudança na Aviação do Exército

Certamente, para a maximização dos recursos, fazendo mais com menos, sobressai a criatividade, a capacidade de inovação e a otimização dos meios para o cumprimento da missão. Entretanto, nem sempre temos a clareza do alcance de nossas responsabilidades e nos embrenhamos em caminhos sinuosos na busca de soluções. Isto é feito à revelia do que se espera das Forças Armadas e pela dificuldade do Ministério da Defesa em definir áreas de responsabilidade, fundamental para a interoperabilidade e complementariedade entre as Forças.

Neste diapasão, vamos exemplificar com um projeto que estava em hibernação e que reaparece repentinamente, fornecendo indícios que o conjunto de nossas Forças Armadas carecem da desejada maturidade operacional.

No dia 2 de junho, o Presidente da República assinou o Decreto número 10.386 que autoriza o Exército Brasileiro a ter os “vetores” necessários ao cumprimento de suas missões. Este decreto muda radicalmente paradigmas operacionais sem o competente estudo do Ministério da Defesa que definem como operam ou deveriam operar as Forças Armadas Brasileiras.

LEIA TAMBÉM: FAB destaca interoperabilidade entre as forças: “Um mais um é mais que dois”

Este assunto, tratando de aeronaves de asa fixa no Exército, foi discutido em 2017 durante uma reunião no Ministério da Defesa com a presença do Ministro da Defesa, comandantes das três Forças e do Chefe do Estado Maior Conjunto, quando o Comando da Aeronáutica, apresentando fundamentadas razões, se posicionou contrário a decisão unilateral do Exército. Em sendo aceita a vontade do Exército Brasileiro, ficaria patente a dificuldade do Ministério da Defesa de otimizar os recursos e validar a tão sonhada complementaridade de nossas Forças Armadas.

As razões do posicionamento da Força Aérea são facilmente identificadas e reforçadas pela gênese da Força e do Ministério da Defesa, associados a sempre indispensável necessidade de otimização dos parcos recursos para que nosso país mantenha uma mínima capacidade dissuasória num momento em que há arroubos internacionais de violação de nossa soberania.

A Força Aérea tem uma frota aproximada de 100 aviões de transporte, com potencial de voar acima de 50 mil horas anuais. Entretanto consegue voar pouco mais da metade deste esforço aéreo por absoluta falta de recursos financeiros que poderiam ser priorizados pelo Ministério da Defesa.

Alocar recursos de dezenas de milhões de dólares para treinar tripulações, adquirir e adequar aeronaves para o Exército, enquanto dezenas de aeronaves da Força Aérea estão paradas por falta destes mesmos recursos, chega a ser um acinte, no momento em que as dificuldades orçamentárias comprometem a missão das Forças Armadas.

LEIA TAMBÉM: AMX – O Futuro do Passado

É inegável a necessidade do suporte aéreo logístico, principalmente na Amazônia, onde estão localizados diversos pelotões de fronteira em áreas remotas, dependendo quase que exclusivamente de apoio aéreo. Certamente, a Força Aérea e o Ministério da Defesa, como órgão responsável pela integração entre as Forças, não tem atendido a altura esta necessidade, sendo, portanto, um problema identificado e delimitado.

Aí estaria uma oportunidade ímpar de corrigir o rumo e mostrar aos brasileiros que sabemos otimizar nossos recursos. Entretanto, a opção escolhida voltou aos anos anteriores a criação do MD, ignorando áreas de responsabilidade e a razão de ser do Ministério da Defesa que é de planejamento, coordenação e otimização dos recursos. Talvez a motivação deste processo esteja acima do interesse coletivo, onde interesses setoriais buscam ocupar espaço, sempre que se apresentar possível. Poderíamos também dizer que aí está uma das razões da criação do Ministério da Defesa: a imparcialidade e o interesse da nação acima do corporativismo de uma ou outra Força Armada.

Este é apenas um exemplo da otimização dos recursos e atribuição de áreas de responsabilidade. Existem outros pontos igualmente importantes e que poderiam ser revistos ou otimizados. Entre eles, a unificação dos cursos de altos estudos, a otimização dos hospitais, com áreas de excelência, utilizados pelas três Forças e a implementação de bases compartilhadas, reduzindo os custos administrativos e priorizando a essência da operacionalidade. Estas três sugestões poderiam ser mais exploradas e contribuiriam significativamente para uma modelagem mais eficiente de nossas Forças Armadas.

Com este Decreto 10.386 de 2 de junho de 2020, constatamos, com pesar, que o Ministério da Defesa não confirma uma das principais razões de sua existência: a integração e a interoperabilidade entre as Forças Armadas.

Você já assistiu à série #Sextou?! Confira as melhores dicas culturais da aviação!

Visite a loja da Editora Rota Cultural e veja nosso acervo de
livros, edições da revista ASAS e produtos ligados à aviação!

Sobre o autor

Redação

Comentários

  • Será que nunca ouviram falar em aeronaves como C-12, OV-1, etc,?
    O que não faz sentido é manter Senecas e Bandeirantes para atender exclusivamente unidades do EB. Foi com essa conversa arcaica que tivemos, por cerca de 40 anos, uma unida de aviação de asa fixa embarcada da força aérea. Ainda focam em meios, em vez de missões.

  • Esse tipo de comentário, do ex-comandante, só serve para criar intriga entre as forças, perdeu a oportunidade de ficar calado.

  • Quando a mudança prejudica os Brigadeiros, a velharada estrelada fica raivosa, sem pensar no país. Agora quando a reforma da previdência da caserna só beneficiou essa mesma corja, os ficaram calados e não defenderam a tropa, a mais prejudicada. É castigo. Eu acho é pouco. O EB merece sua própria aviação.

    • Questao sensivel porem com uma solucao ja encontrada pela historia pos revolucao industrial chamada de “A divisao do trabalho”. Tal pratica promove a especializacao e, com isso a economia de recursos. A forca aerea em seus quase 80 anos especializou-se, por sua missao constitucional em ” aviação” conceito amplo que vai alem da aeronave. Operacao, treinamento, manutencao e toda sua logistica!!! Resumindo: ou o EB vai gastar muito mais, tomara que nao seja com vidas, ou vai sucumbir!!!! A sorte ta lancada!!!!

  • Os Brigadeiros e o comando da aeronáutica poderiam fazer notas de reclamação dos políticos fazendo uso dos aviões da FAB pra cima e pra baixo. Daria uma ótima economia. Nunca vi nem uma só notinha de rodapé.

  • Na minha opinião as forças armadas tem que se unir para o bem do Brasil.
    Devem parar com estas rusgas que só trazem desavenças.
    As três tem que trabalhar em conjunto para o bem do Brasil. No meio do Amazonas cabem duas bases aéreas para proteção e patrulhamento das nossas fronteiras. Não esquecendo que o Brigadeiro Rossato já está na reserva e hoje quem deve decidir se o exército deve ou não ter asas fixas são os comandantes das três forças e o Presidente da República.

  • O problema das forças armadas brasileiras e quê os comandantes são brasileiros kkkkk não se fazem militares como antigamente, tudo querendo quê o povo segura cabrita para eles mamatem

  • Aquela carta que não tem fundamentos concretos e que só serviu para mostrar o que ele pensa do próprio umbigo.

  • Falácias, meias-verdades e ilações usadas desesperadamente como argumentos egoístas, que têm como único propósito evitar a “perda de poder pela Força”, mesmo que, para tal, seja mantida uma doutrina antiquada e ineficiente de emprego das nossas FFAA. Ademais, dolorosamente, expõe inadmissível falta de fraternidade, camaradagem e lealdade entre irmãos de Armas.

  • A aeronáutica me parece que não gosta de ajudar o governo… Nunca tem um posicionamento como o exército, eu tenho a impressão que divergem não transparece coesão. No governo do JB só o coronel que faz parte… Nunca vejo a aeronáutica falar nada…inclusive leva pra cima e pra baixo essa porcalhada política…

  • Até parece que a FAB daria prioridade de atuação ao exército… ainda que em trabalhos conjuntos, ego e vaidade quase sempre estarão junto aos comandantes de cada força. Nada mais apropriado que o exército ter a sua própria aviação de asa fixa. FAB pode assim continuar com suas missões. Muitos justificam a situação da Marinha por conta dos A4. Porém o erro foi a Compra do NAe São Paulo já sucateado… cada uma das forças armadas deve ter condições de atuar sozinhas ou em conjunto.

  • Perdão, Brigadeiro, mas o Exército ter a sua independência aérea é essencial para a manutenção do Estado democrático por meio do Equilíbrio de poder entre as três forças.
    Que venham os aviões de transporte e que após ganha a experiência, que venham os caças e futuros pilotos formados pela AMAN

  • É Justo o nosso valoroso Exército ter,o direito aos vetores aviões de asa fixa! Mas, antes deveriam equipar e modernizar a frota do ministério da Aeronáutica! Todos tem quê ficar,no mesmo patamar.Todas as três forças Unidas,em cumprimento da valorosa missão! A Soberania da nossa nação!

  • Primeiro vamos terminar o projeto do gripem . Dps sem nenhum problema equipar o exército com os aviões de caça, não podemos descobrir um santo pra cobrir outro generante aquilas aquia, águias geram águias

  • Só quem trabalha na Amazônia conhece a dificuldade da maioria todos 28 pelotões especiais de Fronteira que ficam à Deriva muitas vezes passando necessidades tendo em vista a dificuldade de se conseguir aeronaves para suprir as suas necessidades.

    O brigadeiro tivesse manifestado a sua opinião e tivesse aeronáutica tomado alguma atitude para impedir esta festa que é uso de aviões da Aeronáutica em voos executivos de políticos ministros e outros mais talvez sobrasse mais verba para atender de forma adequada a esses pelotões de Fronteira

    Brigadeiro o seu perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado!!

    SELVAAA

  • O Exército não pode depender da Aeronáutica para as inúmeras missões, principalmente na Amazônia, existe uma má vontade muito grande por parte da tripulação que se acham superiores a todos.

  • EB com caças? Complicado. Afirmar isso, é desconhecer a cadeia logística q implica ter vetores assim. Por favor, avise aos outros exércitos do Mundo!! Os quartéis estão revesando turnos para poder dar o rancho para seus militares. Então, fica impossível cada Força ter meios assim, desse jeito e aproveitar a estrutura já existente. Não tem grana, simples assim.

  • Penso que o Brigadeiro Rossato foi muito lúcido nos seus comentários. Em contrapartida, as pessoas que escreveram aqui devem estar pensando apenas em vaidades bairristas.
    Se minha família tem três pessoas e três automóveis, mas não tem dinheiro para mantê-los, não é melhor ficar só com um ou dois bem funcionais e coordenar as agendas para todos serem atendidos?
    Povo brasileiro, raciocine mais, trabalhe mais e fale menos.

Clique aqui para comentar

Garanta já a sua Edição 114 de ASAS!

Promoção Fim de Ano!

Novidade! Assine ASAS também na Versão Digital!

Parceiros