Há exatos 40 anos, entre 18 e 19 de maio de 1986, a Força Aérea Brasileira (FAB) viveu um dos mais controversos e famosos episódios da sua história. Naquela noite de segunda-feira, dois caças F-5E Tiger e três F-103 Mirage III foram acionados para interceptar alvos cujas características, comportamento e tipo de voo não permitiram uma identificação. Por conta da produção documental sobre o tema e até por uma entrevista do então Ministro da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, quatro dias depois, o evento passou a ser informalmente chamado de “Noite Oficial dos Óvnis”.
Ainda que muito vinculado pelos relatos de avistamentos visuais, os eventos daquela noite também destacaram eventuais situações de interferência eletromagnéticas, típicas de sistemas de guerra eletrônica. Houve funcionamento anormal de equipamentos tanto em caças quanto no Centro de Operações Militares 1 (COpM-1), vinculado ao Primeiro Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta I), controle de solo de onde as interceptações foram conduzidas.

Primeira interceptação
O primeiro acionamento de um interceptador ocorreu pouco depois das 22h. Às 22h34, um F-5E Tiger do 1º Grupo de Aviação de Caça, com sede na Base Aérea de Santa Cruz, no oeste da cidade do Rio de Janeiro (RJ), decolou sob comandos do Tenente Kleber Caldas Marinho. O COpM-1 o conduziu até a área de São José dos Campos (SP), onde havia relatos e sinais de radar de alvos não identificados. O F-5 se aproximou voando a Mach 0.7 (cerca de 865 km/h), com as luzes apagadas.
De acordo com o Tenente, ele logo fez contato visual: tratava-se de uma luz branca, às vezes variando para vermelho e verde. Então, ele acionou seus pós-combustores, fazendo brilhar a traseira do seu F-5, além de acender as luzes de navegação. Porém, mesmo chegando a Mach 0,95 (1.173 km/h), o radar indicou uma mudança brusca do perfil de voo do alvo, que se dirigiu ao Atlântico. A menos distância alcançada foi de 18,5 km.

Segunda interceptação
Enquanto isso, o COpM-1 conduzia uma segunda interceptação, porém, no Planaldo Central. Às 22h48, decolara da Base Aérea de Anápolis, em Goiás, um F-103E Mirage, sob comando do Capitão Armindo Sousa Viriato de Freitas. O controle de solo já enfrentava problemas: o radar de aproximação de Anápolis conseguia visualizar o alvo, mas nada aparecia nas telas do COpM-1.
O radar do F-103E inicialmente também detectou o alvo e, chegando a ultrapassar a barreira do som, o Capitão chegou a ficar a apenas 1,85 km do alvo, antes que o contato desaparecesse e reaparecesse segundos depois a 23,15 km, um comportamento anormal para uma aeronave. Depois, ele ficou novamente a uma distância mínima do que poderia ser um outro alvo. Contudo, apesar do esforço e da proximidade, não houve qualquer contato visual, sendo a interceptação totalmente baseada em erráticos contatos nos radares do F-103 e do controle de Anápolis.

Terceira interceptação
A terceira interceptação teve ainda mais claramente sinais de interferência. Um F-5E decolou às 22h50 da Base Aérea de Santa Cruz, pilotado pelo Capitão Márcio Brisolla Jordão, logo encontrando numerosos contatos-radar imóveis atrás da aeronave. Apesar da falta de nuvens e de haver lua cheia, o piloto não conseguiu visualizar nada, pois os sinais no radar desapareciam antes da sua chegada ao local indicado.
Já nas proximidades de São José dos Campos (SP), o piloto notou uma luz vermelha mas, mais uma vez, ao tentar se aproximar, o ponto desapareceu do radar e do horizonte. Sobre o município do Vale do Paraíba, sua tela começou a apresentar riscos na diagonal, indicando um funcionamento errático. Tão logo deixou a área, o radar voltou a funcionar normalmente.

Quarta interceptação
Sob comandos do Capitão Rodolfo da Silva Souza, um Mirage III decolou às 23h17 de Anápolis. Mais uma vez, o radar do controle de aproximação da base goiana indicava um alvo, porém o COpM nada via em suas telas. Na conversa com o controle, o piloto informou conseguir visualizar o solo, mas nada do alvo, que supostamente estava sempre atrás da aeronave: quando ele manobrava, o alvo se reposicionava imediatamente, passando sobre ou sob o Mirage. Mas não houve qualquer contato visual.
Quinta interceptação
Às 23h36, um último caça decolou para interceptação: tratou-se do F-103E sob comando do Capitão Júlio Cézar Rozenberg, mais uma vez, valendo-se apenas das informações do radar de aproximação de Anápolis, sem que nada aparecesse na tela do COpM-1 nem do caça. Ele teria ficado a apenas 1,8 km do alvo, sem visualização.
Mistério e prontidão
A “Noite Oficial dos Óvnis” incluiu ainda avistamentos em solo, feito tanto por controladores de tráfego aéreo em São José dos Campos (SP) quanto por militares na Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAR), em Guaratinguetá (SP). Também houve avistamentos a partir de aeronaves civis, entre eles um Bandeirante da empresa TAM e um Embraer Xingu, onde estava a bordo o engenheiro Ozires Silva.
Em 23 de maio, o então Ministro da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, disse em coletiva de imprensa que foram detectados 21 objetos voadores não identificados na noite de 18 para 19 de maio de 1986. O militar disse não haver explicação para os fatos. Os relatórios posteriormente elaborados são inconclusivos.
Toda a documentação oficial sobre o caso já está à disposição do público, no Arquivo Nacional. A liberação dos arquivos gerou expectativas, porém não havia nada escondido ou detalhes que impressionaram o público.
Interessante também mostrar o grau de prontidão da FAB na época: entre 22h34 e 23h36, cinco caças foram acionados para interceptação.









