A justiça já decidiu: até 31 de agosto, o Aeroclube de Canela deverá desocupar sua sede e seu hangar localizados no aeroporto da cidade gaúcha, vizinha de Gramado, um dos principais destinos turísticos do país. A decisão, dada em nome da concessionária do aeroporto, a Infraero, vem em um cenário onde projetos para ampliação do setor aeronáutico podem gerar danos futuros para a própria aviação brasileira. Já são cerca de 20 aeroclubes fechados pelo país em contextos semelhantes.
“A sociedade é prejudicada”, desabafa o presidente do Aeroclube de Canela, Marcelo Sulzbach. Segundo ele, os 76 anos da instituição, sendo mais de 30 no mesmo local, foram marcados pela formação de novos aviadores, com turmas de dezenas de novos pilotos a cada ano, a um custo mais acessível frente às escolas de aviação privadas. A preocupação é a de que daqui a alguns anos haja uma falta de mão de obra para a área.
De acordo com a legislação, um aeroclube é uma associação civil sem fins lucrativos, de utilidade pública, voltada ao ensino e à prática da aviação civil. Qualquer receita gerada por taxas de cursos, voos de instrução ou manutenção é aplicada integralmente na melhoria da infraestrutura, compra de aeronaves e bolsas de estudo. O Brasil adotou este modelo ainda nos anos 30 e a regulamentação veio em 1967.

Em Canela, ficou evidente como os planos de expansão do setor aeronáutico esbarram na ideia da existência de uma organização de interesse público, com fluxo de caixa limitado. “O aluguel ficou muito acima da nossa capacidade financeira, mas nós nos dispusemos a pagar. Mesmo assim, criaram novas exigências”, conta o presidente do Aeroclube de Canela.
Hoje, a unidade conta com um par de aeronaves Cessna 172 e, via acordos, com um Sêneca III e um Corisco Turbo. O hangar de 750 m² permite acomodar a frota e, quando possível, o aluguel de espaço. Incluindo a área administrativa, são cerca de 2.500 m². Mesmo diante das instabilidades institucionais iniciadas em 2022, quando o município deixou a gestão do aeroporto local, de 20 a 25 pilotos têm sido formados anualmente por ali. A qualidade da formação é atestada na prática: há ex-aluno que hoje comanda jatos Airbus A380 em companhia aérea internacional.
A crise, contudo, remete a anos anteriores. Por décadas, aeroclubes receberam subsídios e até aeronaves do poder público. Com o passar dos anos e mudanças institucionais, as exigências técnicas começaram a se sobrepor aos benefícios. O símbolo disso foi o despejo do Aeroclube do Brasil, o primeiro do país, fundado em 1911, por Santos Dumont. Em 2014, a unidade foi judicialmente forçada a se retirar do Aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro (RJ), também após uma ação movida pela Infraero.

Em Canela, dois sentimentos restam nos 30 últimos dias de provável funcionamento do aeroclube. Há uma notável insatisfação com o fato de o aeroporto ter ficado em evidência em 2024, durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, e não ter havido reconhecimento pelo trabalho voluntário de membros do Aeroclube, que se tornou um verdadeiro hub logístico de doações. Também há a esperança de que, de alguma forma, ainda seja possível reverter a decisão, mesmo que o mais recente pedido de reconciliação judicial tenha sido negado.
A Infraero não respondeu ao pedido da Revista ASAS de esclarecimentos sobre o tema. Para outros veículos de comunicação, a estatal informou que buscou soluções amigáveis e que, como uma empresa pública, segue normativos, legislações e um rigoroso compliance.










