Pós-Graduação em Engenharia Aeronáutica da Unesp vai se destacar pela estrutura

Criado em maio, o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Aeronáutica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) ainda está em implantação, mas já começou a ser visto com expectativa no Brasil. Um dos principais motivos é a estrutura: o campus em São João da Boa Vista (SP) integra um seleto grupo de instituições brasileiras que possuem seu próprio hangar para o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão.

O Hangar Tecnológico, como é chamado, possui uma metragem total de 1.294 m² e uma área interna de 600 m². A estrutura, entretanto, possui uma característica que não é tão comum nas universidades que dispõem de espaços para abrigar aeronaves: seus portões dão acesso direto à pista de pouso e decolagem do Aeroporto Municipal da cidade, permitindo aos alunos o desenvolvimento de atividades em um ambiente aeronáutico real.

Em uso desde 2022, o hangar representa um diferencial para a formação dos estudantes, colabora na aproximação com o setor produtivo e abriga uma equipe universitária de aerodesign que desponta como uma das melhores do país. O local é vinculado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e foi cedido à Unesp no final de 2021 por meio de um regime de concessão com contrato válido até 2050.

“O hangar não é de uso exclusivo para os alunos de engenharia aeronáutica, ele é usado também pelos estudantes de engenharia eletrônica e de telecomunicações para pesquisa e integração”, explica Edemar Morsch Filho, professor do departamento de aeronáutica da Faculdade de Engenharia de São João (FESJ) e coordenador do Hangar Tecnológico.

O professor Edemar Morsch Filho explica que conseguir um hangar universitário não é tarefa fácil, pois o espaço vem acompanhado de uma série de restrições por questões de segurança. No Brasil, ainda hoje são poucas as instituições de ensino superior que têm uma estrutura desse tipo à disposição dos alunos e pesquisadores, entre elas estão o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ciente dessa dificuldade, o coordenador se mostra solícito ao uso do local por interessados externos. “Se pessoas de outras unidades tiverem interesse em utilizar, estamos de portas abertas, até mesmo para outras instituições. A gente sabe da dificuldade de conquistar esse espaço”, diz o professor.

A câmara anecoica instalada no hangar é utilizada por estudantes de engenharia eletrônica e de telecomunicações para testes de propagação de antenas. Foto: FESJ/Unesp

Atualmente, a Fundação para o Desenvolvimento da Unesp (Fundunesp) está atuando junto à Universidade nas tratativas para incorporação de uma aeronave vinculada à Receita Federal à FESJ. Caso seja possível viabilizar a destinação do pequeno avião, ele ficará no hangar e será usado pelos estudantes no desenvolvimento de projetos acadêmicos e científicos na área de Engenharia Aeronáutica. “Nós temos, por exemplo, disciplinas de manutenção de aeronaves. Então o aluno poderia usar, de fato, para abrir, desmontar e remontar a aeronave para que ela volte a seu uso principal”, explica o professor.

Segundo Morsch Filho, a FESJ tem suas disciplinas teóricas, mas também se preocupa com os ambientes laboratoriais, que aproximam os estudantes da vida profissional. “Antes mesmo do aluno pegar o diploma, trabalhar na indústria, ele já tem um contato um pouco mais profundo com essa estrutura, o que enxergamos como um diferencial que agrega na formação como engenheiro”, afirma.

Estrutura de alto nível

Entre as estruturas disponíveis no hangar para uso dos estudantes está uma câmara anecoica. O espaço é projetado para absorver totalmente ondas sonoras ou eletromagnéticas e isolar o ambiente contra ruídos externos. Dentro dela, o silêncio é tão grande que uma pessoa consegue ouvir ruídos que normalmente não se escuta, como os batimentos do coração ou o sangue correndo nos vasos sanguíneos. Além do estranhamento que esse ambiente pode causar no ser humano, o silêncio total torna a câmara um laboratório para testes de propagação de antenas, que costumam ser realizados pelos estudantes de engenharia eletrônica e de telecomunicações.

As salas do hangar também são ocupadas por grupos de pesquisa da Faculdade de Engenharia de São João (FESJ), como o Núcleo de Estudos em Transferência de Calor e Nanotecnologia (NEST-n), que estuda transferência de calor com mudança de fase, possibilitando o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à minimização de equipamentos e à dissipação de altas taxas de transferência de calor. O espaço também abriga o Grupo de Pesquisa em Estruturas, Manufatura e Materiais (GPEM2), que objetiva o desenvolvimento de materiais e manufatura de estruturas e componentes para diversas aplicações industriais.

Hangar Tecnológico da Unesp possui uma área interna de 600 m² e área de uso em seu perímetro de 1.294 m². Foto: FESJ/Unesp

Linhas de pesquisa

O novo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Aeronáutica vai contemplar duas linhas de pesquisa: Fenômenos de Transporte e Gestão Térmica em Sistemas Aeronáuticos, com foco na análise e a otimização dos processos de transferência de calor e massa em componentes como turbinas, motores, sistemas de propulsão elétrica, superfícies de sustentação, além de investigar o impacto dos fenômenos térmicos na eficiência e na segurança das aeronaves; e a segunda linha, Estruturas e Sistemas Dinâmicos, que abrange estudos sobre vibrações e estabilidade aeroelástica em componentes aeronáuticos e espaciais, bem como o desenvolvimento e a avaliação de materiais avançados para estruturas de alto desempenho.

Liderança nas competições universitárias

Desde o início de 2026, o Hangar Tecnológico também tem sido ocupado pelo Adelphi Aerodesign Team, a equipe universitária de Aerodesign formada por estudantes do campus de São João da Boa Vista. A equipe iniciou seus trabalhos em 2016, mas começou a participar das competições apenas em 2019. Desde então, tem se consolidado como uma das principais equipes do país.

O time é tetracampeão na categoria Advanced da Competição SAE BRASIL AeroDesign, organizada anualmente pela associação SAE Brasil, na cidade de São José dos Campos. Em 2024, o time conquistou o Troféu Embraer de Excelência de Projeto e, em 2026, posicionou-se dentro do top 10 mundial do SAE Aero Design East, realizado em Lakeland, na Flórida, nos Estados Unidos. Nessas competições, equipes formadas exclusivamente por estudantes devem projetar, construir e testar uma aeronave rádio controlada, com o objetivo de cumprir desafios específicos de cada categoria. Os alunos são divididos em duas categorias: Advanced e Micro.

Equipe da Adelphi Aerodesign Team representou o Brasil no campeonato mundial do SAE East, realizado em 2026 em Lakeland, nos Estados Unidos. Foto: Adelphi Aerodesign Team/Unesp

Os alunos no primeiro grupo estão nos anos finais da graduação e recebem as missões mais complexas, como lançar um planador autônomo a partir de uma nave mãe. “Há um comando para lançar e esse planador deve automaticamente, tudo já pré-programado, pousar exatamente em um alvo que é sinalizado na hora da competição”, explica Lucas Calache, docente responsável pela equipe da FESJ. Nas provas também são feitos testes de desempenho em que os jurados observam, por exemplo, o máximo de carga que pode ser carregada na aeronave. Já a categoria Micro agrupa estudantes recém chegados no curso com o objetivo de ensiná-los os primeiros conceitos sobre a manufatura de aeronaves e despertar nesse público o interesse pelos torneios. As missões, nesses casos, envolvem propostas mais simples, mas não menos desafiadoras, como a construção de um eVTOL (Electric Vertical Take-Off and Landing), aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, que devem, por exemplo, transportar carga líquida durante as competições.

Desde 2026, a equipe ocupa o Hangar, onde realiza a manufatura e parte dos testes ligados às aeronaves das competições. Os alunos têm ainda uma sala de reuniões e um contato estreito com a aviação. Henrique Bisco, aluno do quarto ano de engenharia aeronáutica e capitão do time Adelphi, destaca que alguns integrantes chegam a passar até seis horas por dia no local, trabalhando nos projetos e observando as aeronaves. “É uma vivência muito bacana. Quando um avião pousa ou decola na pista, nós paramos o nosso trabalho para acompanhar. Isso naturalmente é bastante atrativo para quem faz o curso de aeronáutica, mas também de telecomunicações”, afirma.

Para Henrique Bisco, o envolvimento dos alunos nas competições de aerodesign também proporcionam oportunidades de networking. Isso porque o público costuma incluir pessoas de outras faculdades e de empresas da área. “As competições também são espaços em que a gente pode conversar e se conhecer melhor. Nesse ambiente às vezes aparecem algumas oportunidades de estágio para os alunos”, conta o estudante. A Embraer, principal empresa de aviação do país, é uma das apoiadoras do SAE Brasil Aerodesign.

Estudantes trabalham em projeto para competições nacionais e internacionais em sala dentro do Hangar Tecnológico da Unesp. Foto: Adelphi Aerodesign Team/Unesp

Para o professor Calache, a presença de uma estrutura como o Hangar Tecnológico e a participação em atividades práticas como o grupo Adelphi Aerodesign Team são fundamentais para despertar no aluno o interesse pelo curso e ajudá-los a formar os primeiros contatos profissionais. No entanto, um aspecto não tão palpável é o estabelecimento de laços entre os estudantes. O docente relata que na FESJ é comum que alunos já formados retornem ao câmpus para acompanhar os projetos e auxiliar os mais jovens nas competições. “Isso traz aos alunos um senso de pertencimento. Eles estão no hangar colocando a mão na massa e fazem o trabalho por amor, felizes por ver aquilo sendo construído. Isso faz toda a diferença”, relata o docente.

(da reportagem do Jornal do Unesp)

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