AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

Desaparecidos em Ação

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Os Combates entre Norte-Americanos e Soviéticos na Guerra Fria

Por Claudio Lucchesi

Tendo ocupado toda a segunda metade do século 20, a Guerra Fria contrapôs os EUA e a URSS, e seus respectivos blocos. Seu início não é muito definido, mas foi quase simultâneo ao fim da 2ª Guerra Mundial, tendo um marco na criação da chamada Doutrina Truman, pela qual os EUA definiam seu objetivo de conter, inclusive por meios militares, a expansão da influência soviética. Já o final pode ser datado – 31 de dezembro de 1991, quando houve o colapso da URSS. Seja como for, nas suas quase cinco décadas de duração, a Guerra Fria assombrou a Humanidade com o pesadelo da destruição do planeta num confronto nuclear irrestrito entre os dois antagonistas – o que, felizmente para todos, nunca ocorreu. O fato é que o poder militar dos antagonistas era de tal monta, que as forças destes jamais entraram em conflito militar aberto e declarado entre si, e assim, em grande parte, o embate ficou no campo da propaganda, da espionagem, política e economia. Isto, oficialmente.

Longe dos jornais e da opinião pública, pilotos soviéticos e norte-americanos se engalfinharam em ações de guerra muito mais vezes do que jamais seus governos reconheceriam, mas enfim, passadas mais de duas décadas de seu fim, podemos agora ter acesso a boa parte dos registros de tais combates – os céus bem “quentes”, da Guerra Fria.

Dada a amplitude do tema, esta matéria se limitará às ações mais relevantes dos confrontos diretos entre aeronaves militares norte-americanas e soviéticas, deixando para outros estudos as ações envolvendo aparelhos de outras nacionalidades, e civis.

Aliados, mas não muito

Aliado da URSS por força da posição absolutamente determinante desta para a derrota do nazismo, quando ainda ocorriam os derradeiros combates com alemães e japoneses, já os EUA organizavam seus meios aéreos para obter informações militares de seu (ainda) aliado, mas potencial rival na geopolítica global. Assim, um dos primeiros incidentes sérios envolvendo aeronaves norte-americanas e soviéticas ocorreu apenas cerca de um mês após a capitulação japonesa! Em 15 de outubro de 1945 (algumas fontes citam 15 de novembro), um PBM-5 Mariner da US Navy (USN, Marinha norte-americana) fazia uma patrulha para averiguar a presença de navios de transporte soviéticos no Mar de Bohai, quando foi atacado por um caça soviético, perto de Dalian (antiga Port Arthur), mas conseguiu evadir-se sem ser atingido.

Era só o começo. Entre a rendição japonesa e o final de 1950, seriam registrados 46 incidentes deste tipo, envolvendo 63 aeronaves, e apenas entre 27 de junho e 16 de julho de 1950, o comando soviético registraria 15 violações de seu espaço aéreo. E desde este começo ficaria marcante que o principal “teatro de operações” seriam as fronteiras da URSS, seu espaço aéreo e de seus aliados. Lembrando do atual caso da NSA (National Security Agency, Agência de Segurança Nacional, dos EUA) espionando tanto inimigos quanto aliados; apesar de não haver nenhuma guerra declarada, os EUA empreenderam um esforço gigantesco numa campanha aérea secreta, violando o Direito Internacional e os princípios de soberania nacional, realizada por aeronaves da Marinha (USN), Força Aérea (USAF), e também por aquelas operadas pela CIA (Central Intelligence Agency, a agência de espionagem norte-americana). Segundo fontes não-oficiais, entre abril de 1950 e 1960, foram 81 invasões do espaço aéreo soviético por aviões norte-americanos, dos quais 20 jamais retornaram. Tais missões tinham os mais variados objetivos, desde a “provocação” das defesas aéreas, monitorando sua resposta; até mapeamento do território, reconhecimento de instalações estratégicas e militares, de movimentos de tropas, e mesmo o “desembarque” de agentes dentro do território soviético.

Quanto a obter os mesmos tipos de dados, referentes aos EUA, os soviéticos usualmente recorreram à outros métodos (tão ou até mais eficientes), e não com intrusões aéreas. No ar, utilizariam versões especiais de seus grandes bombardeiros para captar dados do poderio naval oponente, sobretudo das forças-tarefa navais norte-americanas – e tais voos renderiam os seus confrontos, embora não na quantidade, e muito menos na violência, daqueles travados nas fronteiras soviéticas.

Em 8 de abril de 1950, o PB4Y-2 Privateer “Turbulent Turtle” do esquadrão VP-6, da USN, estava em missão de espionagem dos dispositivos navais soviéticos no Báltico, tendo decolado da base norte-americana em Wiesbaden (então, Alemanha Ocidental). Pouco depois de invadir o espaço aéreo soviético na Letônia (então república da URSS), próximo da base naval de Liepaja, foi interceptado por quatro caças Lavochkin La-11. Não obedecendo às ordens destes, o Privateer abriu fogo contra os La-11, sendo então atacado e abatido por estes, caindo no mar com a perda de toda sua tripulação de dez homens.

Foi a primeira perda de vidas num combate aéreo direto entre norte-americanos e soviéticos na Guerra Fria.

Combates no Mar da China

 A eclosão da Guerra da Coréia, em 25 de junho de 1950, iria colocar as instalações militares no Extremo Oriente soviético no centro das atenções dos EUA, assim como estas em perigoso estado de alerta máximo, e o primeiro episódio sério ocorreu já em 4 de setembro daquele mesmo ano.

Quatro caças F4U-4B Corsair do esquadrão VF-53 estavam em patrulha aérea de combate para o porta-aviões USS Valley Forge, da Task Force 77 (TF.77), que protegia as forças navais na área contra qualquer ação norte-coreana, e os caças identificaram a aproximação de dois bombardeiros-torpedeiros Douglas A-20 Boston, do 36º Regimento Aéreo da Frota do Pacífico soviética. Estes estavam a sudeste de Dalian (então, sob ocupação soviética), a uns 74km da costa, aparentemente em missão de reconhecimento armado, e com a chegada dos caças, um deu meia-volta, mas o outro seguiu à frente. Acossado por dois dos Corsair, o A-20 abriu fogo de sua torreta dorsal, sendo então abatido pelos projéteis de 20mm do caça do Subtenente Edward V. Laney, caindo no mar, com a morte de seus três tripulantes.

Mais tarde, em 4 de dezembro de 1950, um dos então novos reconhecedores a jato da USAF, um RB-45C Tornado (do 91º Esquadrão de Reconhecimento Estratégico, 91st SRS), penetrou no espaço aéreo chinês, a uns 72km/leste de Andung, junto ao Rio Yalu e a fronteira com a Coréia do Norte. Ali ficavam as bases dos MiG-15 soviéticos que, com marcações norte-coreanas, estavam participando da guerra; e foi um destes caças que interceptou e abateu o Tornado.

Em 6 de novembro de 1951, um P2V-3W Neptune do VP-6 seria abatido por um La-11 a apenas uns 12km de Vladivostok, com a morte de todos os dez tripulantes, e em 13 de junho de 1952, seria a vez de um RB-29 do 91st SRS ser abatido sobre o Mar do Japão, a uns 15km do litoral soviético, por dois MiG-15. Todos os 12 tripulantes foram dados como desaparecidos, e outro destes aparelhos, da mesma unidade, seria perdido em 7 de outubro do mesmo ano, derrubado por dois La-11 sobre as Ilhas Kurilas, território soviético, também com a perda de toda a tripulação de oito membros.

Então, em 18 de novembro de 1952, aconteceu um confronto direto entre caças a jato dos EUA e da URSS. O porta-aviões USS Oriskany navegava ao largo da costa da Coréia do Norte, como parte da TF.77, e esta se aproximava da fronteira norte-coreana com a URSS, quando se detectou aeronaves vindo em sua direção, diretamente do território soviético, uns 80km ao norte. Quatro F9F-2 Panther (esquadrão VF-781) decolaram e, pouco depois, identificaram quatro MiG-15. O combate feroz que se seguiu seria negado tanto pela URSS quanto pelos EUA por mais de 50 anos, e seus detalhes ainda tem controvérsias, mas neste trabalho, pode-se confirmar que o 781º Regimento de Caça da Frota do Pacífico, então baseado em Vladivostok, foi a unidade soviética envolvida, perdendo três pilotos – os Capts. Belyakov e Vandalov, abatidos sobre o mar, e o Ten. Pakhomkin, em pouso de emergência com seu caça danificado, já em território soviético. Após a ação, a TF.77 mudou seu rumo, afastando-se do território da URSS.

Antes que o armistício cessasse as hostilidades na Península Coreana, em 27 de julho de 1953, a USAF ainda teria a perda de um RB-50, abatido por dois MiG-15 perto de Petropavlovsk, em 15 de abril. E apenas dois dias depois da paz estar em vigor, em 29 de julho, um outro RB-50, do 343rd SRS, seria derrubado ao sul da Ilha de Askold, perto de Vladivostok – desta vez vítima de um par de MiG-17.

O fim da Guerra da Coréia, porém, não significaria o fim das intrusões norte-americanas contra o território soviético no Extremo Oriente, sobretudo diante do incremento dos dispositivos militares na região, que só iria aumentar nas décadas seguintes.

Invasões aéreas

O conflito coreano e as intrusões naquela área demonstraram a total vulnerabilidade dos B-29/-50 aos MiG-15, sobretudo nos voos solitários do reconhecimento estratégico. Assim, logo após o início das entregas, em outubro de 1951, dos primeiros bombardeiros a jato Boeing B-47 Stratojet, já se iniciou o desenvolvimento de uma versão de reconhecimento estratégico deste, que entrou em serviço em 1954, como RB-47E. Com o novo aparelho, a USAF sentiu-se capaz de iniciar voos de penetração profunda na muito mais bem defendida região européia da URSS, assim como em outras áreas do território soviético.

Um primeiro incidente ocorreu já em 8 de maio de 1954, quando um RB-47E da 91st SRW (Ala de Reconhecimento Estratégico), que decolara de Fairford (Inglaterra), penetrou no espaço aéreo soviético perto de Murmansk (base da Frota do Norte da Marinha soviética), seguindo até Arkhangelsk (outra base naval), na Península de Kola. Uma esquadrilha de MiG-17 o interceptou, subindo até a altitude do bombardeiro (11.600m), atacando. O RB-47E respondeu com fogo de sua torreta de cauda, sem atingir os MiG, mas um destes o acertou várias vezes, obrigando-o a fugir para o espaço aéreo sueco (sem autorização).

Cerca de um ano depois, em 17 de abril de 1955, dois MiG-15 abateriam um RB-47E do 4th SRS sobre a Península de Kamchatka, com a perda de todos os tripulantes, mas apesar disso, numa operação específica, entre 21 de março e 10 de maio de 1956, 21 RB-46E/H fizeram cerca de 156 voos à partir da Groenlândia, mapeamento grandes áreas da Sibéria.

Os Stratojet continuaram a operar até meados da década de 60, embora com ousadia menor, sobretudo após a perda de um segundo aparelho – um RB-47H do 38th SRS, derrubado em 1º de julho de 1960 sobre o Mar de Barents, por um MiG-19, quando em missão sobre a Península de Kola.

Estas invasões aéreas, desde o final dos anos 40, deixaram óbvio ao Comando soviético que seu sistema de defesa aérea era então insuficiente para as imensas “fronteiras aéreas” da URSS, com grandes extensões ainda sem cobertura de radar. E os EUA faziam as violações por todos os lados, e mesmo às custas das perdas de grandes aviões, como os RB-47, e suas altamente qualificadas tripulações. Para piorar, estavam adicionando novas aeronaves incursoras, como o Martin RB-57 Canberra (uma variante de grande altitude do Canberra britânico). Em sua versão RB-57D, era capaz de voar a 21.300m de altitude, e assim inalcançável por caças como os MiG-15bis, MiG-17PF e Yak-25 então em uso. Nesta luta pela defesa da soberania nacional, exigiu-se da indústria aeronáutica soviética o desafio de produzir uma nova geração de caças, capazes de efetivamente neutralizar os invasores aéreos, resultando disso os novos interceptadores de Mach 2 e grande altitude, os Sukhoi Su-9, Su-11 e Su-15, com o primeiro destes entrando em serviço em 1959.

A ameaça do U-2

 Mas, antes que tais caças estivessem disponíveis, em 1º de agosto de 1955 fazia seu primeiro voo o avião-espião Lockheed U-2, um projeto secreto capaz de voar a mais de 21.300m de altitude. Com enorme alcance, iria substituir o problemático RB-57, cujo projeto, pressionado por prazos e urgências, tinha graves falhas estruturais. A primeira missão de um U-2 partiu de Wiesbaden (então Alemanha Ocidental) em 4 de julho 1956, e teve total sucesso, e no mesmo ano, o Comando de Defesa Aérea soviético descobriria (da pior forma possível) a nova ameaça, quando um piloto de MiG-17, em patrulha sobre Moscou, reportou um avião de silhueta desconhecida, semelhante à um planador, voando lentamente numa altitude superior à 20.000m – impossível de ser alcançada pelo caça.

Este e relatos posteriores confirmaram as capacidades do novo invasor, que superava em altitude mesmo o Su-9 então em desenvolvimento. Tentativas de interceptação com os MiG-17, em 1957-58, foram absolutamente infrutíferas. Mas assim como se buscava criar uma nova geração de interceptadores, também se trabalhava em novos mísseis antiaéreos (SAM), e em 1956 entrou em testes uma nova arma deste tipo, o S-75 Dvina (SA-2 Guideline, para a OTAN).

Estava para terminar o tempo dos “vôos livres” sobre a URSS…

Em 1o de maio de 1960, o Major Francis Gary Powers decolou de Peshawar (Paquistão) num U-2, com a missão de espionar os centros de lançamento e testes de mísseis e foguetes em Baikonur e em Plesetsk, cruzando a URSS de sul a norte, à leste de Moscou, passando ainda sobre Sverdlovsk, Kirov e as bases navais de Archangelsk e Murmansk, indo pousar na base aérea de Bodo, Noruega. Mas a Inteligência norte-americana ignorava as “novidades” da defesa aérea inimiga.

Ao penetrar no espaço aéreo soviético, Powers foi detectado e a defesa aérea reagiu com toda força – e, desta vez, muito melhor preparada. Com 3h27 de vôo, o U-2B foi atingido por um S-75. Estava a 20.000m de altitude, pouco ao norte de Sverdlovsk. Powers ejetou, sendo capturado em terra, e o caso virou manchete no mundo, com o piloto sendo julgado como espião em Moscou.

É fato que a defesa aérea soviética estava sob forte pressão, vindo sendo “humilhada” pelos U-2 desde 1956, havendo uma imposição de se abater um destes aviões, custasse o que custasse. Quando Powers foi detectado, não só todas as baterias de SAM foram acionadas, mas também os caças. Dois MiG-19 (um dos quais foi abatido por um S-75), o primeiro caça soviético supersônico, foram enviados em interceptação, assim como um dos protótipos do Su-9 – o aparelho estava sendo avaliado numa base, sem armas, mas mesmo assim decolou!

Mas, enfim, a defesa aérea teve a sua vitória.

E uma de profundas consequências.

Por ordem do presidente Dwight Eisenhower, os vôos de U-2 foram suspensos até 1962, e mesmo ao recomeçarem, a penetração no espaço aéreo soviético foi limitada a 30km, permitindo a fuga diante de qualquer reação de caças ou SAM.

O ocaso das intrusões

Uma das últimas perdas norte-americanas numa missão de intrusão do espaço aéreo soviético ocorreu em 1967, quando um ERB-47H da 55th SRW foi atingido por um míssil antiaéreo em missão sobre a fronteira da URSS com o Irã. O aparelho, em função dos danos sofridos, acabaria caindo perto de Teheran, com a perda de toda a tripulação.

Por outro lado, em dezembro de 1964, fazia seu primeiro voo um novo avião-espião norte-americano, o Lockheed SR-71 Blackbird, capaz de voar muito alto (25.900m) e era a aeronave militar mais veloz já criada, atingindo Mach 3.3 (mais de 3.540km/h), e a união de altitude com velocidade tornava-o “imune” às defesas inimigas. Entraria em serviço em 1966, mas ao final dos anos 60, a defesa aérea soviética dispunha de uma rede de radares em vários escalões, praticamente fechando todos os “buracos” nas fronteiras do vasto território, conectada a uma estrutura de baterias de SAM de vários níveis. Além disso, à partir de 1973, a já poderosa força de interceptadores da defesa aérea passou a contar com o MiG-25, o jato armado operacional mais veloz do mundo (capaz de atingir Mach 3.2) e que, bem orientado pelos radares de terra, poderia realizar uma interceptação bem-sucedida do Blackbird. Por outro lado, fruto da derrubada do U-2 de Powers, a CIA e a USAF aceleraram o Programa Corona, a primeira série de satélites-espiões dos EUA, cujo exemplar inicial (KH-1) fora lançado em junho de 1959, operando até setembro do ano seguinte. Embora bem menos flexíveis que os aviões, os satélites anulavam o risco de combates, obtenção da tecnologia embarcada pela apreensão da aeronave ou acesso aos seus destroços, captura de tripulações e incidentes políticos.

Assim, o SR-71 acabaria não sendo operado em intrusões no espaço aéreo soviético, realizando. em vez disso, missões nas “fronteiras”, como no Mar Báltico, sempre com a aeronave em céus internacionais.

Operando pela estrela vermelha

Por outro lado, se intrusões no espaço norte-americano não estavam nos planos soviéticos, destes era parte relevante a coleta de dados de Inteligência (eletrônicos, de sinais e de comunicações) do NORAD (a rede de defesa aeroespacial dos EUA, com importantes instalações no Alaska e Canadá, neste último por acordo binacional) e das forças navais norte-americanas, assim como o acompanhamento dos movimentos destas, com destaque para as forças-tarefa de porta-aviões, pilares da capacidade de projeção de força global dos EUA. Para isso foram criadas variantes de Inteligência eletrônica e de sinais (ELINT/SIGINT), assim como de patrulha/ataque marítimo, dos bombardeiros de longo alcance Tu-16 (Badger, no código da OTAN) e Tu-95 (Bear).

A primeira intrusão (registrada) de um avião soviético no espaço aéreo do guardado pelo NORAD, no Alaska, foi em 5 de dezembro de 1961, quando dois caças F-102 Delta Dagger da USAF da Base Aérea de Galena interceptaram um Badger. Estes aparelhos soviéticos seriam uma constante nas décadas seguintes, “espiando” com seus sensores nos limites do espaço aéreo do Alaska, e não raro fazendo penetrações curtas e rápidas; com os Tu-95 atuando de modo similar nas “fronteiras” do Canadá, mas evitando intrusões.

Em abril de 1970, pela primeira vez, um Tu-95RT, voando diretamente de Murmansk, pousou em Cuba e, à partir de 1975, os Bear passaram a operar regularmente da ilha, na Base Aérea de San Antonio de los Banos. Isto permitiu voos desde as bases soviéticas na Península de Kola até a ilha caribenha, “margeando” as defesas da OTAN no norte da Europa e Atlântico Norte, e toda a costa leste do Canadá e dos EUA. E também os Tu-142M (variante “naval” do Tu-95, com capacidade anti-submarino) passaram a utilizar Cuba, à partir de 1983.

Apenas em 1989, os F-15 da USAF fizeram 33 interceptações de aviões soviéticos (22 sendo Tu-95) voando próximos às “fronteiras” do NORAD. A versão de Inteligência do Bear mais comum nestes voos era o Tu-95RT (Bear D), e quanto às missões voltadas às forças navais dos EUA, geralmente, os caças embarcados da USN se limitavam a ameaçar e manter os Bear e Badger à distância, mas algumas vezes, os encontros foram bem menos “amistosos”.

Os autores Alexander Kotlobovsky e Igor Seydov, num trabalho publicado em 1995 na revista russa “Mir Aviatsii” citam o desaparecimento em 4 de agosto de 1976 de um Tu-95RT, perto da Terra Nova (Canadá), num voo originado na Península de Kola e que cruzara o Mar da Noruega. Na mesma data, segundo os pesquisadores, um outro Tu-95RT, fazendo uma rota similar, foi interceptado por três caças F-4 Phantom II, um dos quais se aproximou tanto do Bear que acabou atingindo a asa deste com a sua cauda. Com seu avião fora de controle, os tripulantes do Phantom II ejetaram, enquanto o Tu-95, mesmo avariado, conseguiu retornar à sua base na URSS.

Post Scriptum

Em meados dos anos 80, a defesa aérea da URSS também estava em forte renovação, com a chegada dos novos caças Su-27 e interceptadores MiG-31 (modelo que substituiu os MiG-25 à partir de maio de 1981), e também de mísseis SAM de nova geração, como os S-300. Em 1988, um dos regimentos aéreos em Kamchatka, reequipado com os MiG-31, realizou nada menos que 825 missões para afastar aeronaves “hostis” das proximidades do espaço aéreo soviético, o que dá uma idéia da intensidade das ações mesmo no final dos anos 80. Mas também refletia um novo nível de eficácia da defesa aérea soviética. Em 8 de março de 1985, por exemplo, um par de MiG-31, do 365º Regimento de Caça, interceptou um SR-71 Blackbird, que voava sobre águas internacionais, mas nas proximidades de Kamchatka, levando o jato norte-americano a abortar sua missão.

 

Nesta foto impressionante, um caça F-4B Phantom II do VF-114 voa “sob a asa” de um Tu-16R que “acompanhava” o porta-aviões USS Kitty Hawk. Segundo os autores Alexander Kotlobovsky e Igor Seydov, em meados da década de 80, houve a interceptação de um Badger por dois caças F/A-18A Hornet, tipo que estava entrando em serviço na USN. Os caças fizeram passagens muito próximas do Tu-16R, bastante agressivas, e numa destas acabaram colidindo entre si, explodindo diretamente acima do Badger. Este, porém, apesar de danificado, conseguir retornar à sua base.

 

Foto do Consolidated PB4Y-2 Privateer “Turbulent Turtle”, o primeiro avião militar norte-americano abatido por caças soviéticos quando em missão de intrusão do espaço aéreo da URSS, em 8 de abril de 1950.

 

Um regimento de caças MiG-15bis da Força Aérea soviética, nos anos 50, época em que foram responsáveis por inúmeras ações contra aeronaves intrusas dos EUA.

 

Um Boeing RB-29 Superfortress do 91st SRS. Em 26 de dezembro de 1950, acontecia o primeiro abate de um destes quadrimotores da USAF numa intrusão sobre a URSS. O aparelho foi vítima de dois MiG-15 na área de Ola, na costa do Mar de Okhotsk.

 

Um North American RB-45C Tornado, versão de reconhecimento de um dos primeiros bombardeiros a jato operacionais dos EUA. O B-45A, versão inicial, entrou em serviço em abril de 1948, e o RB-45C foi a variante final, com as entregas tendo início em junho de 1950. Tinha velocidade de cruzeiro de 800km/h e teto operacional de 12.200m.

 

As missões dos RB-47 Stratojet (na foto, um exemplar da versão E) usualmente partiam de bases no Alaska e na Groenlândia, mas também foram usadas as no Reino Unido, Espanha, Grécia, Noruega e nas Ilhas Aleútas.

 

O MiG-19 foi o primeiro caça soviético capaz de voo supersônico sustentado, alcançando 1.450km/h e podendo operar em altitudes de até 17.500m. Foi também um dos primeiros caças da URSS armado com mísseis ar-ar, em 1957, inicialmente sendo os RS-1U (K-5, visto na foto).

 

O Sukhoi Su-9 foi representante da primeira safra de caças “Mach 2” da URSS. Entrando em serviço em 1959, tinha velocidade máxima de 2.135km/h, com teto operacional de 16.760m, sendo usualmente armado com dois mísseis ar-ar.

 

Uma salva de S-75 Dvina, míssil antiaéreo capaz de atingir um alvo a até 32km de altitude. Aprovado para uso, começou a ser entregue em 1957 às unidades de defesa aérea, e os soviéticos literalmente encheram o seu território e fronteiras com baterias destas armas.

 

Os restos do U-2 de Powers, preservados no Museu Central das Forças Armadas, em Moscou, Rússia. Com sua derrubada, os soviéticos provavam ao mundo suas acusações das violações deliberadas de seu espaço aéreo pelos norte-americanos e para estes, foi uma grande “dor de cabeça”, e não apenas em termos diplomáticos e políticos – o episódio mostrou que o U-2 não mais podia voar “impune” sobre a URSS.

 

Foto em abril de 1979, feita por um satélite KH-9 Hexagon da base aérea soviética de Kubinka, perto de Moscou. Ao todo, seriam lançados 144 satélites da série inicial Corona, entre 1959 e 1972, com 102 deles gerando material fotográfico utilizável. E aos Corona se seguiriam séries de satélites-espiões cada vez mais sofisticados, como os KH-9 Hexagon, lançados entre 1971 e 1986.

 

Um interceptador MiG-25P da defesa aérea soviética. O tipo representou um marco na capacidade da URSS de rechaçar as intrusões aéreas sobre o seu território. Podendo ser armado com até quatro mísseis ar-ar, tinha alcance operacional (apenas com combustível interno) de 1.730km; com velocidade máxima de 3.470km/h, razão de subida de 208m/seg e teto operacional de 20.700m

 

Nos anos 70/80, os Bear utilizavam, além de suas próprias bases na URSS, também algumas em países “amigos”, como Cuba, Angola, Guiné, Somália e Vietnã, dando-lhes enorme amplitude geográfica no monitoramento das forças navais norte-americanas. Na foto, vê-se um Tu-95RT (Bear D), sendo “escoltado” por F-4 Phantom II do VF-151.

 

O equivalente norte-americano dos Tu-95 de SIGINT/ELINT foi a prolífica família RC-135, derivada do confiável avião-tanque Boeing KC-135 Stratotanker. De certa forma, à partir dos anos 80, estes aviões se tornaram as mais importantes (e eficientes) plataformas aéreas dos EUA para a coleta de dados de Inteligência – voando “junto às fronteiras” da URSS, em regiões como o norte e o centro da Europa, e no Extremo Oriente (nas áreas de Vladivostok, Ilhas Kurilas e Península de Kamchatka), e não raro sendo interceptados pelos caças soviéticos.

 

 

Sobre o autor

Claudio "Lontra" Lucchesi

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