AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

F-18 para Marinha seria guinada negativa no planejamento

Foto: André Feitosa / Força Aérea Brasileira

Opinião

Circulam informações ainda não oficialmente confirmadas de que a Marinha do Brasil estudaria a aquisição de caças F-18 Hornet usados. E é bom que não haja confirmação: a compra significaria uma guinada no planejamento brasileiro, com consequências negativas tanto em termos operacionais quanto tecnológicos.

Ainda que seja um caça elogiável, com uma ficha de serviços longa e capacidades inegáveis, o fato é que o F-18 tem sido um fracasso em termos de exportação. O caça da Boeing simplesmente não vende mais. Desde o último acerto com a Austrália, anunciado em 2007, não há nenhum outro cliente além da própria Marinha dos Estados Unidos. A Austrália até agora se tornou a única operadora do F-18E/F Super Hornet, versão que concorreu em seleções em todo o mundo, inclusive no Brasil, e perdeu uma após a outra.

Na foto acima, Super Hornet (à esquerda) e Hornet (à direita). O Brasil iria adquirir a versão mais antiga

Mas não para aí: a Marinha do Brasil estudaria a compra de unidades das versões C (monoposto, para um piloto) e D (biposto), ainda mais antigas, com capacidades operacionais bastante aquém das encontradas nos F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira a serem recebidos a partir do próximo ano. Os longevos F-18C/D viriam dos estoques da própria US Navy ou ainda da Força Aérea do Kuwait. Essa segunda opção teria a vantagem de envolver aeronaves menos desgastadas, visto que operaram sem os austeros pousos e decolagens de porta-aviões.

O fato, porém, é que os F-18 mais antigos são aeronaves ultrapassadas. Todos os países do mundo que ainda os operam têm planos concretos para a sua substituição ou já contam com caças mais avançados, estando os Hornets no fim da vida útil. Uma aquisição desse tipo só interessaria às empresas que oferecem serviços de manutenção.

Com o F-18E/F derrotado na seleção F-X2 da Força Aérea Brasileira para o sueco Gripen, o F-18C/D não traria apenas uma capacidade operacional menor, mas também impediria qualquer tentativa de promover uma maior padronização das Forças Armadas brasileiras, uma das razões da criação do Ministério da Defesa. De fato, ver um eventual anúncio de aquisição de caças ex-US Navy por parte da Marinha do Brasil pode vir a parecer mais um indício de que o alinhamento se dá com a marinha de outra nação, e não com a força aérea do seu próprio país. 

Na foto acima, Comandante da Força Aérea Brasileira recebe simbolicamente o primeiro protótipo do F-39E. A seleção do novo caça ocorreu após um processo seletivo que resultou em um relatório de mais de 30 mil páginas

Importante ressaltar que a aquisição dos caças Gripen, ocorrida durante o governo de Dilma Roussef após uma longa análise realizada durante o governo Lula, e em alguns aspectos durante o governo FHC, não se trata de um projeto de um governante, mas um projeto do Estado brasileiro. De fato, a Força Aérea Brasileira, durante todo o processo seletivo, foi extremamente transparente em suas comunicações sobre os critérios técnicos adotados. O trabalho desenvolvido pelos militares da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC) não pode ser reduzido a uma simples vontade partidária. 

Ter uma padronização da frota de caças da FAB e da Marinha traz uma série de vantagens. Contratos com fornecedores únicos, centros de treinamentos integrados e projetos de modernização conjuntos são algumas delas. Não por acaso, os Estados Unidos têm investido nisso: os F-35 Lightning II serão operados pela US Air Force, US Navy e United States Marine Corps. Ainda que com versões diferenciadas, como a de pouso vertical utilizada pelos fuzileiros, a busca foi pela máxima comunalidade entre os vetores.

Na imagem acima, as três versões do caça F-35

Há ainda outro fator. Assim como os Estados Unidos sempre fazem, o Brasil finalmente conseguiu que um projeto de modernização de sua aviação de caça envolvesse a indústria nacional de maneira decisiva. A seleção, o contrato e o desenvolvimento do projeto se basearam, desde o início, na transferência de tecnologia. O F-39 Gripen, muito mais que ser um caça sueco adquirido pelo Brasil, é um projeto que conta com a efetiva participação das empresas brasileiras, como Embraer, AEL e Akaer. Da produção à futura manutenção, a economia brasileira será estimulada, com empregos gerados em solo nacional. Além disso, os ganhos em independência são imensuráveis.

É verdade que a versão naval do Gripen, atualmente designada pela Saab como Gripen Maritime (imagem abaixo), ainda é um projeto longe de ser concretizado. Porém, causa estranheza a Marinha do Brasil estudar a aquisição de um novo caça em um momento em que sequer dispõe de um porta-aviões.

Ter um porta-aviões não é condição preponderante para uma Marinha ter aeronaves de combate. Do continente, é possível realizar várias missões de defesa do mar territorial, como o esclarecimento marítimo, a designação de alvos e o ataque naval. A Marineflieger, aviação naval da Alemanha, chegou a operar 112 caças Tornado nas tarefas de reconhecimento e ataque naval.

A Marinha do Brasil tem usado seus AF-1 do 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1) nessas missões, ainda que desprovidos dos necessários armamentos, como bombas inteligentes ou mísseis. E entra aí mais um ponto de reflexão: hoje, a Marinha do Brasil sequer tem recursos para manter seus caças em operação, nem mesmo seus navios de escolta. É o momento de adquirir novas aeronaves?

A defesa neste texto das aeronaves Gripen da Força Aérea Brasileira não é, na realidade, uma defesa da aquisição dessas aeronaves para a Marinha do Brasil. Não. É a defesa de projetos de Estado com início, meio e fim.

A possibilidade de o Brasil deixar de ser um país que planeja o reequipamento das suas forças armadas para voltar a ser um mero comprador de material usado põe em xeque toda a visão de desenvolvimento nacional exposta na Estratégia Nacional de Defesa. Se tal pensamento pode ser aplicado à Marinha, o que garante que o primeiro lote de 36 F-39E/F seja tão somente um primeiro lote, e no futuro tenhamos por aqui algumas dezenas de outros caças de segunda mão, sem qualquer reflexão sobre o papel da indústria nacional? Trata-se aqui de defender planejamentos. 

Até o investimento na modernização dos caças AF-1 (A-4 Skyhawk), ainda que questionado em alguns círculos de militares e especialistas em defesa, teve a sua justificativa tanto pelas atividades operacionais hoje desenvolvidas pelo Esquadrão VF-1, envolvido até na tarefa de identificar as manchas de óleo que atingiram o litoral do Nordeste, quanto na tentativa de manter uma doutrina operacional mesmo sem haver um navio aeródromo.

De fato, mesmo operando de terra, na Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia, os AF-1 são manejados como se estivessem em um porta-aviões. Os pilotos brasileiros, igualmente, só ganham sua transferência para o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1) após realizarem um treinamento na US Navy que inclui pousos a bordo de porta-aviões. 

Com os AF-1 recém-modernizados, a Marinha faria a compra de novos caças tão logo tiver um projeto de aquisição de um futuro porta-aviões. Porém, caso venha a comprar os F-18, esses jatos, já antigos, virão simplesmente para também cumprirem o papel de aeronave-tampão, sendo necessário substituí-los no futuro. 

A compra de uma dúzia de F-18 Hornet, ainda que elevasse a capacidade operacional, não deixaria a Marinha do Brasil mais próxima do seu sonho de voltar a ter um porta-aviões operacional (sonho este já abandonado por vários países), não ajudaria a evoluir a Base Industrial de Defesa brasileira, não representaria nenhuma economia, não ajudaria a ampliar a integração entre as Forças Armadas, não traria nenhuma nova capacidade operacional para o Brasil. Em resumo, se for só para manter a doutrina operacional naval, os AF-1 acabaram de ser modernizados. Se for para ganhar capacidade operacional, há opção melhor.

Com tantos aspectos negativos, resta esperar que a possibilidade de ter havido um estudo sério sobre o tema, ou que apenas a eventual “plantação” da notícia, seja tão somente eco de influências comerciais derrotadas nos processos seletivos sérios. Ou um mero tempero ideológico de quem, na prática, não imagina um Brasil realmente forte. 

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Redação

Comentários

  • O F18 super hornet é muito superior que qualquer caça que as forças armadas brasileiras já tiveram, inclusive melhor que o gripen. Na ocasião da disputa o F18 só foi descartado pois não haveria nenhuma transferência de tecnologia. Porém era o favorito.

  • Este artigo traz uma série de informações erradas… Dizer que a versão brasileira do Gripen é muito aquém de um caça F-18C é um erro! Não se pode comparar um F-18C com o Gripen E , são versões dos caças desenvolvidas em épocas bem distintas. O Gripen E poderia ser comparado com a última versão do F-18 ; e se esta comparação for feita ; quem será o melhor caça? Outro aspecto importante , a decisão do Programa F-X2 , onde o Saab Gripen foi o vencedor não de deveu por questões técnicas . Conforme denúncia do MPF , o programa sofreu tráfico de influência.

  • Uma das coisas que o autor esqueceu de ressaltar é que o F/A-18 hornet tem a vantagem de ser um caça barato e, muito superior ao A4/AF-1M da Marinha.

    Agora se você raciocinar… 1° que a Marinha do Brasil tem pouco verba e, necessita urgentemente de meios navais como fragatas pesadas por exemplo, 2° que a gente ainda não tem um porta-aviões, 3° a falta de vontade política, e 4° que o F-39 E/F é caro

    Chegará a conclusão que o F-18 hornet é uma boa opção vide as condições financeiras da Marinha e o salto de capacidades de um AF-1M para o F/A-18 C/D hornet.

    Na minha opinião o F-18 hornet é aquela opção boa e barata e, que muito provavelmente não atrapalha tanto os outros projetos, e ainda sim, aprimora suas capacidades.

    E isso tudo por um preço bem acessível para a marinha.

    O ideal, obviamente, seria os moderníssimos F-39E/F, mas por ser caro, eu acho que só será possível depois que a marinha adquirir o meios mais urgentes (como fragatas pesadas, navio caça minas, navios tanques e o tão sonhado porta-aviões).

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