AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

OPINIÃO – Onde estão os nossos SAM?

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Cláudio Lucchesi
Texto originalmente publicado na coluna “Off the Record”, da Revista ASAS – Edição Nº 110

Um dos assuntos que mais tem me incomodado ao longo de meus quase trinta anos de trabalho especializado é o do porquê o Brasil não possuir nenhum tipo de sistema de defesa aérea de área com mísseis (os notórios SAM, Surface to Air Missile). Temos apenas defesa de ponto, com mísseis portáteis, Igla-S e RBS70, capazes de defender uma tropa contra um atacante aéreo em contato visual, operados tanto pela Aeronáutica quanto pelo Exército; e os blindados Gepard, de canhões, também de curto alcance, do Exército. E ainda as baterias de SAM de curto alcance, Aspide e Seawolf, em alguns dos navios da Marinha. De todos, o Aspide é o que exibe o maior alcance – 25 km.

Isso significa que se um jato militar invadir o nosso espaço aéreo na Região Norte, por exemplo, tudo o que terá de temer são os atuais caças F-5EM (e, no futuro, os F-39 Gripen). Se for um ataque com, digamos, dois elementos (pares) de jatos, mesmo que dois ou até três sejam abatidos, bastará que um único escape – para ter todo o caminho até o seu alvo totalmente “livre”, sem absolutamente nada que o possa impedi-lo de destruir seu objetivo. Que poderia ser o “cérebro” de toda nossa defesa aérea da Região Norte, o Cindacta IV, em Manaus, por exemplo.

Desculpem, não entendo como isso pode ser possível.

Temos Forças Armadas das mais bem treinadas da América Latina, em muitos aspectos, absolutamente líderes. Nossa Força Aérea possui aeronaves de alerta-radar e de Inteligência Eletrônica modernas. Começa a operar um dos aviões de transporte militar mais modernos do mundo, e está para receber um caça de última geração, com certeza, o de tecnologia mais avançada, em toda a região.

Todavia, exatamente os nossos caças, são estes a nossa única defesa efetiva.

Na Guerra do Vietnã, as mais atuais estimativas colocam em cerca de 1.040 os aviões norte-americanos abatidos ou dados como perda total, pela ação dos SAM do Vietnã do Norte, os S-75 Dvina (designado pela OTAN como SA-2 Guideline), de fabricação soviética. Esse número representa impressionantes 31% das perdas de aeronaves em combate dos Estados Unidos no conflito – enquanto, segundo as próprias fontes históricas vietnamitas, os caças MiG do país responderam por um percentual de 9% das perdas do poderoso inimigo. Ou seja, embora a bibliografia militar destaque muito os combates aéreos dos Phantom, Thunderchief e outros, contra os MiG, para um piloto norte-americano operando sobre o Vietnã do Norte, uma bateria de Dvina em seu caminho representava uma ameaça muito maior que qualquer MiG…

E, de lá para cá, esse cenário não mudou. Eu diria até que ele se consolidou.

Na Operação Tempestade no Deserto, em 1991, os Estados Unidos e seus aliados perderam 40 aeronaves em missão, e uma única destas foi por ação de uma aeronave inimiga – um F/A-18C norte-americano abatido por um MiG-25PD em 17 de janeiro. Por outro lado, 24 foram vítimas de SAM, de todos os tipos. Vamos recordar ainda que o único avião stealth já perdido em combate foi exatamente vítima de um SAM – em 1999, na campanha da OTAN contra a Sérvia, um F-117 norte-americano foi abatido por um míssil S-125 Neva (SA-3 Goa), de origem russa.



Uma defesa antiaérea de área moderna é hoje constituída, para ser eficaz, em camadas de proteção, com sistemas de mísseis terra-ar (SAM) de longo, médio e curto alcances, neste último caso (ou camada), havendo também sistemas de mísseis/canhões conjugados e ainda apenas de canhões, quase sempre montados em plataformas de alta mobilidade. Enquanto os sistemas de longo alcance geralmente pertencem à Força Aérea (ou uma organização de Defesa Aérea a ela diretamente conectada), os sistemas de médio e curto alcances comumente pertencem ao Exército de cada país, embora seja comum que Marinha e Força Aérea também disponham destes, para a proteção de ponto de suas próprias estruturas e unidades. Um ponto crucial é que todos os componentes (que se ampliam à esquadrões aéreos de interceptadores, por exemplo) operem de modo altamente integrado, em rede (ou como se diz, de forma “netcêntrica”), de modo a se complementarem, atuando em conjunto.

Na Rússia, por exemplo, a defesa aeroespacial estratégica do país cabe às Forças de Defesa Aeroespacial e de Mísseis, que desde 2015 compõem as Forças Aeroespaciais russas, com a Força Aérea e as Forças Espaciais. Porém, um exemplo dessa operação conjunta e coordenada de defesa aérea pode ser visto na operação militar realizada na Síria, em que, a base aérea utilizada pelos russos, em Humaymim, é protegida pelos SAM de longo alcance S-200VE e S-400 (num destacamento das Forças Aeroespaciais russas, excepcionalmente deslocados do território russo) integrados a sistemas de médio (Pechora-2M e Buk-M2E) e de curto alcances (Pantsir-S1 e Osa-AKM) alcances do Exército russo), numa única estrutura conjunta de defesa aérea.

De fato, tal é a relevância dos atuais sistemas SAM, sobretudo os de longo alcance, que quando o Irã anunciou a compra do sistema SAM russo S-300, de longo alcance, em 2007, no ano seguinte, Israel negociou com a Grécia, que possuía o S-300 desde 1996, para a realização de um exercício aéreo conjunto, “Glorious Spartans”, que envolveu mais de 100 aeronaves, em 2008 – de modo que os militares da Força Aérea israelense pudessem avaliar, em condições “reais”, as capacidades do S-300, e como enfrentá-lo. Mais recentemente, a aquisição do sistema russo S-400 pela Turquia, um país-membro da OTAN, resultou em sanções de Washington contra o país, incluindo a sua retirada do programa do caça stealth F-35, e num afastamento político sem precedentes entre as duas nações. Já a Índia, que tem feito negociações visando à aquisição do S-400, já recebeu dos Estados Unidos a ameaça direta de poder sofrer sanções militares similares – se concretizar a compra do SAM russo, que é capaz de detectar um alvo a mais de 500 km e destruí-lo a distâncias de até 250 km, podendo cada bateria engajar até 36 alvos diferentes e lançar até 72 mísseis, simultaneamente.

Mais recentemente, numa conversa informal com um alto oficial de nosso Exército, soube que nosso Ministério da Defesa estuda, em conjunto com as três Forças, a aquisição de um sistema SAM de médio alcance (alcance de detecção por volta de 100-150 km, e de engajamento, cerca de 40-45 km). A ideia seria uma aquisição conjunta, com certo número de baterias para cada Força. Hoje, todos os meios antiaéreos, de todas as Forças, operam sob coordenação do COMAE, o Comando de Operações da Aeronáutica – e assim deverá continuar, com certeza!, com a nova “camada” de defesa aérea provida pelo futuro sistema SAM de médio alcance. Quando tal sistema se tornar operativo, deverá ainda ser concomitante à aquisição de uma nova geração de sistemas de curto alcance, e alta mobilidade – teremos então, pela primeira vez, uma defesa aérea de camadas, e ainda, integrada aos novíssimos caças F-39 Gripen.

Um céu que nos cobre, enfim, devidamente protegido.

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