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Tragédia e superação: os 50 anos do Milagre dos Andes 

Sobreviventes avistados por helicóptero chileno

Uma história contada em filmes, livros e palestras. Uma narrativa de superação que incluiu desafios perversos como sobreviver ao frio da Cordilheira dos Andes ou precisar comer carne humana como último recurso para ter esperança no resgate. Esse conto sobre a sobrevivência humana começou há exatos 50 anos, em 13 de outubro de 1972, quando um Fairchild FH-227D se acidentou em uma área montanhosa remota entre a Argentina e o Chile.  

O avião, operado pela Força Aérea Uruguaia, transportava 45 pessoas de Montevideo para Santiago, com destaque para o time de rugby Old Christians Club, acompanhado por familiares e amigos. Apesar de apenas seis dos 16 sobreviventes serem atletas do time, a força de dois deles foi determinante para conseguirem resgate 72 dias depois do acidente, semanas após as equipes de busca desistirem de encontrar sobreviventes. 

O acidente 

A tripulação do voo FAU 571 era experiente. O Coronel Júlio César Ferradas era o comandante, com mais de 5.100 horas de voo e registro de ter cruzado os Andes 29 vezes. Ao seu lado, o copiloto, Tenente-Coronel Dante Lagurara, também tinha longa carreira na força aérea, mas estava em treinamento para aquele tipo de missão. O avião era novo, com quatro anos e 792 horas. 

As condições climáticas, porém, não ajudavam naquele dia. A tripulação já havia decidido pernoitar em Mendoza, na Argentina, do dia 12 para 13 de outubro, quando também ficou evidente que enfrentariam condições meteorológicas desfavoráveis. A rota também deveria ser ampliada: como o Fairchild FH-227D só voava a até 8.500 metros, não seria possível voar diretamente para o destino, cruzando uma rota de 200 km onde haveria picos de até 7.900. No lugar disso, a tripulação precisaria fazer uma rota maior, de 600 km, em uma hora e meia de voo.  A decolagem ocorreu às 14h18, horário local. 

Por conta da camada de nuvens, a navegação foi feita por instrumentos, mantendo 5.500 metros, o suficiente para evitar os picos de montanhas da área. O sistema VOR/DME indicava a distância para a estação de rádio em Curicó, no Chile. Às 15h21, o copiloto entrou em contato com o controle de tráfego chileno pra informar que iriam sobrevoar Curicó em um minuto, o que se revelou uma estimativa errada. Sem cobertura radar na área e com a informação errada, o controlador autorizou a descida para 3.500 metros. Seria o erro fatal.

Voando a baixa altura sobre os Andes, o avião passou a sofrer severa turbulência. Sobreviventes relataram que conseguiram ver montanhas próximas em um momento em que a tripulação também possivelmente notou seu erro de navegação e começou a subir, não antes de o alarme de colisão soar. Houve a tentativa de ganhar altura rapidamente, mas às 15h34 houve o primeiro impacto, a 4.200 metros, danificando o cone de cauda. Em seguida, veio um choque na asa direita e, por fim, a crítica destruição da traseira da aeronave, que perdeu seus estabilizadores, a galley, compartimento de bagagens e parte da cabine de passageiros, vitimando cinco pessoas imediatamente. 

Ao impactar contra a montanha nevada, a fuselagem ainda deslizou por 725 metros em alta velocidade, até o impacto final, que matou o comandante e deixou o copiloto fatalmente ferido. A maior parte da fuselagem do avião parou em uma área gelada a 3.570 metros, em uma área batizada após o acidente de Glaciar de las lágrimas.  

Aeronave semelhante à acidentada

Mortes e sobrevivência 

Mais duas pessoas caíram da aeronave ainda durante o acidente, e morreram. Outras quatro faleceram no impacto, incluindo o médico Francisco Nicola e o estudante de medicina Fernando Vazquez. Ao todo, 33 sobreviveram nos primeiros minutos, boa parte com ferimentos e fraturas. O estudante de medicina Nando Parrado sofreu uma lesão no crânio e permaneceu em coma por três dias, sem saber da morte da sua mãe e das lesões na irmã, que posteriormente seriam fatais. Nando se recuperaria, tentaria salvar a irmã, ajudaria a cuidar dos feridos e, por fim, faria parte da expedição em busca de resgate. 

Por conta do horário do acidente, a missão de busca foi efetivada somente na manhã seguinte, quando mais cinco pessoas haviam morrido, incluindo o copiloto. Ao todo, onze aeronaves da Argentina, do Chile e do Uruguai participaram dos esforços de busca, mas o erro de navegação da tripulação fez com que a queda ocorresse a 80 km da rota planejada. A análise posterior descobriu que os pilotos não apenas curvaram antes da hora, mas também em uma rota errônea.  

A partir do segundo dia, os 28 sobreviventes tentariam se aquecer mantendo-se juntos em um espaço de 3 metros por 2,5 metros, usando malas e assentos para tentarem se proteger do frio, que chegava a 30 graus celsius negativos. Vale lembrar que a maioria dos sobreviventes vivia no litoral, e alguns nunca nem haviam visto neve. Destacou-se nessa fase a liderança de Marcelo Perez, que era o capitão do time de rugby. 

Mas a situação apenas piorava. Os sobreviventes não sabiam, mas em 21 de outubro, após 142 horas de voo, a missão de busca foi suspensa. Julgava-se haver poucas chances de alguém estar com vida, independentemente de onde a aeronave teria caído. Oito dias depois, o pior momento viria por volta da meia noite, e de maneira cruel: uma avalanche deixou a fuselagem cheia de neve, matando mais oito pessoas, entre elas, Perez. A fuselagem ficou enterrada um metro abaixo da neve, e mais mortes não ocorreram somente por conta da velocidade com que cavaram entradas para o ar. Durante três dias, foi necessário conviver com os corpos dos que haviam morrido asfixiados.  

Naquele momento, o grupo já havia tomado uma decisão complexa: alimentar-se dos corpos dos companheiros falecidos. Católicos, os sobreviventes viram aquilo como muito mais que o fornecimento calórico.  Houve quem se recusasse, houve quem encarasse a provação como o ato cristão da comunhão. O versículo 13 do capítulo 15 do livro de João passou a ser citado: “Ninguém tem maior amor do que este: dar a alguém a sua vida pelos seus amigos”. Com a decisão, passaram a secar a carne no sol, tornado mais fácil de engolir.  

A fonte calórica e proteica permitiu o início de expedições em torno do local do acidente. Em 15 de novembro, localizaram a cauda, onde havia corpos de desaparecidos, bebida, gibis e uma desejada caixa de chocolates. As baterias do rádio, porém, se mostraram inúteis. Naquele mesmo dia, a gangrena fez mais duas vítimas, o que aumentou o sentimento coletivo de que era necessário buscar a própria salvação. Isso se aprofundou em 11 de dezembro, quando Numa Turcatti, que havia se recusado a praticar canibalismo, faleceu pesando cerca de 25 kg. 

Resgate

No dia seguinte, 12 de dezembro, Roberto Canessa, Nando Parrado e Antonio Vizintín iniciaram a caminhada ao longo das montanhas, que foi iniciada com uma subida de 3.570 metros para 4.670 metros. Ali, ficou claro que o suprimento de comida seria pequeno, o Vizintín retornou. O grupo deixado na fuselagem ficaria dias sem saber o paradeiro dos dois companheiros. Até que na tarde de 22 de dezembro, dois helicópteros UH-1 da Fuerza Aérea de Chile chegaram ao local. A bordo de um deles estava Nando Parrado. Sete sobreviventes, acompanhados por militares, ainda precisaram esperar o dia seguinte pelo salvamento. 

Nando Parrado e Roberto Canessa no Chile

Ao todo, dos 45 ocupantes, doze morreram no dia do acidente e 17 iriam perecer ao longo dos 71 dias até a chegada dos helicópteros. Os dezesseis sobreviventes passariam, nos anos seguintes, a viver o impacto midiático deixado pelo acidente. 

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