AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA DOS ARQUIVOS DE ASAS

Há 10 anos, crise econômica abateu frota britânica de Harrier

Caças Sea Harrier em operação na Guerra das Malvinas Foto: UK MoD

Não foi um dia fácil para os admiradores da aviação britânica. Em 15 de dezembro de 2010, nada menos que 16 jatos Harrier decolaram da base aérea de Cottesmore, na Inglaterra, para uma missão de despedida: era o último voo operacional daquele modelo em mãos britânicas. Famoso pelo desempenho na Guerra das Malvinas, quando foi verdadeiro carrasco da aviação argentina e de tropas em solo, o Harrier acabou abatido pela Strategic Defence and Security Review 2010, um corte generalizado no orçamento de defesa.

A primeira versão, Harrier GR.1, entrou em serviço em 18 de abril de 1969 para cumprir um papel bastante específico no contexto da Guerra Fria: em caso de conflito contra as forças do leste europeu, operaria próximo à linha de frente mesmo na ausência de pistas de pouso intacta para apoiar as tropas aliadas, nas chamadas missões de Close Air Support. Dois canhões Aden de 30mm, bombas e foguetes seriam o a carga bélica suficiente. O alcance não precisava ser grande, afinal, o pouso ocorreria logo após fustigar os inimigos na linha de frente, podendo operar a partir de trechos de rodovias e até de clareiras.

Concepção artística do papel que o Harrier desempenharia em uma eventual guerra contra o Pacto da Varsóvia

Para isso, a Hawker Siddeley desenvolveu um caça de ataque subsônico com a icônica capacidade de decolagem curta e pouso na vertical (V/STOL – vertical/short takeoff and landing) . A principal faceta era o empuxo vetorado do motor Rolls-Royce Pegasus, com quatro tubeiras localizadas nas laterais do Harrier. Ao todo, 278 dessas aeronaves dessa primeira geração foram produzidas, sendo operadas pela Índia, Espanha (AV-8S Matador), Tailândia, Reino Unido (GR.1 e GR.3) e Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, que os designou como AV-8A e iniciou as operações navais já em 1974.

Nos anos 70, o Harrier mostrou seu potencial como uma aeronave a ser usada em momentos de crise em locais com pouco apoio. A partir de novembro de 1975, seis Harrier GR.1A foram enviados para Belize, então uma colônia britânica, por conta do temor de o território ser envolvido na guerra civil da Guatemala. Essa capacidade de operar em um ambiente restrito também se fez valer na Sea Harrier, versão navalizada que entrou em serviço em 29 de agosto de 1978.

Um dos quatro exaustores do motor Pégasus. Notar as diferentes angulações possíveis

Subsônicos, os Sea Harrier tiveram a missão de atuar inicialmente nos porta-aviões HMS Invincible e HMS Hermes. Para muitos foi um retrocesso frente aos antigos F-4K Phantom II, aeronaves supersônicas utilizadas até novembro de 1978 em navios-aeródromos de maior porte. A função de defesa aérea já não seria mais uma missão secundária, mas sim uma tarefa primária dos Harriers navais, que seriam responsáveis pela defesa da frota britânica.

E foi assim que no início de 1982 os britânicos partiram para a Guerra das Malvinas. Ao todo, 28 Sea Harrier e 14 Harrier GR3 foram enviados ao Atlântico Sul. Eles seriam os únicos caças da Royal Air Force e da Fleet Air Arm no conflito: os mais próximos eram três F-4 Phantom II na ilha de Ascenção, a milhares de quilômetros das ameaças argentinas.

Porta-aviões Invicible com caças Harrier e Sea Harrier durante a Guerra das Malvinas
Foto: UK MoD

O plano inicial era que os Sea Harrier voassem prioritariamente as missões de defesa aérea, enquanto os Harrier ficariam com as tarefas ar-solo. Mesmo assim, os aviões da Royal Air Force receberam mísseis ar-ar Sidewinder. Os caças da força aérea e da marinha operaram juntos a partir dos porta-aviões HMS Invincible e HMS Hermes, uma parceria que se repetiria ainda por muitos anos.

Os Harrier e Sea Harrier voaram cerca de duas mil missões ao longo do conflito. O resultado foi o suficiente para ganhar boa fama na comunidade britânica, ao mesmo tempo em que passou a ser chamado de “La Muerte Negra” pelos argentinos. Foram vinte vitórias ar-ar contra nenhuma perda. Cerca de 28% das aeronaves argentinas derrubadas encontraram seus destinos por disparos dos Sea Harrier. A lista inclui um Mirage III, um bombardeiro Canberra, um C-130 Hércules, seis A-4 e nove IAI Dagger, versão israelense do Mirage 5.

A vitória frente aos caças argentinos tem várias explicações. A primeira é que os Mirage e Dagger, apesar de supersônicos, voavam com limitações de autonomia, pois estavam baseados no continente. Isso dava aos pilotos sul-americanos apenas cinco minutos de voo no teatro de operações, enquanto os Harrier e Sea Harrier tinham tempo até para posicionar as Patrulhas Aéreas de Combate de maneira mais eficiente. Também fez diferença a combinação do radar Blue Fox com os mísseis recém-recebidos AIM-9L Sidewinder, então entre os mais modernos do mundo. Por fim, o Sea Harrier também era um desconhecido para os argentinos, enquanto os Mirage e A-4 tinham capacidades bem conhecidas pelas britânicos.

Sea Harrier decola durante a Guerra das Malvinas. Um Harrier está ao lado, sendo possível notar a diferença entre os canopis.
Foto: UK MoD

Nem tudo foi perfeito, porém. Até jatos executivos civis argentinos conseguiam despistar os Sea Harrier ao fazerem aproximações falsas das ilhas em disputa, conseguindo se evadir antes de entrar no alcance dos interceptadores – enquanto isso, jatos de ataque se aproveitavam para despejar suas bombas. Os Sea Harrier também não conseguiram interceptar nenhum Super Étendart, aeronaves de ataque naval equipadas com o temido míssil Exocet.

Segunda geração

As lições aprendidas no Atlântico Sul levaram a melhorias. Já em 1984 foi aprovada a versão FRS.2 dos Sea Harrier, depois chamada de FA2. Com o novo radar Blue Vixen, ganhou a capacidade de levar mísseis AIM-120 AMRAAM, e assim atuar na arena Beyond Visual Range. Esses caças operaram nos anos 90 nos Balcãs, tendo inclusive um FA2 tendo sido abatido por um míssil Igla durante uma missão de ataque a blindados sérvios.

Em 2006, a Fleet Air Arm, a aviação da Royal Navy, aposentou seus Sea Harrier FA2. Porém, isso não significou ter ficado sem operar o jato de pouso vertical. Formada em abril do ano 2000, a Joint Force Harrier uniu força aérea e marinha na operação dos caças. Já estavam disponíveis, também, os Harrier da versão GR7, considerada uma segunda geração. Chamada pelos americanos de AV-8B Harrier II, essa nova família foi designada pelos britânicos originalmente como GR5, e depois as versões modernizadas GR7 e GR9.

Harrier FA2 com mísseis BVR
Foto: UK MoD

Efetivamente multifuncional, o Harrier II contava com o novo motor Pegasus MK 105 e armamentos de nova geração. Essas aeronaves desenvolvidas originalmente para missões terrestres se tornaram os principais vetores dos porta-aviões britânicos entre 2006 e 2010. Com a experiência de ter atuado nos Balcãs, os Harrier também tiveram sucesso operacional no Afeganistão e no Iraque, voando missões de Close Air Support, tal como imaginado originalmente. No confronto afegão, foram 22 mil horas de voo ao longo de cinco anos de operação contínua.

A Strategic Defence and Security Review de 2010, contudo, selou o destino do jato. A última decolagem britânica de um Harrier ocorreu em 24 de novembro de 2010, do HMS Ark Royal. As aeronaves estavam em bom estado: as 72 restantes foram vendidas para o United States Marine Corps para serem usadas como peças de reposição para os AV-8B.

Em 2008, Harrier GR9 no Afeganistão.
Foto: Aaron Allmon / US Air Force

Outros usuários

Até 2016 a marinha da Índia utilizou caças Sea Harrier de uma versão designada FRS Mk.51, com radar EL/M 2032 e mísseis Rafael Derby e Matra Magic II. As aeronaves operaram a partir do porta-aviões Viraat, nome dado ao antigo HMS Hermes após ser revendido aos indianos. Entre 1997 e 2006, os Harrier de primeira geração também operaram com as cores da Tailândia, tendo sido usados no porta-aviões Chakri Naruebet. Eram designados AV-8S Matador, versão comprada pela Espanha, a partir de 1976, e depois revendidos. O USMC utilizou mais de 100 AV-8A Harrier, também já aposentados. 

A segunda geração, designada AV-8B Harrier II pelos norte-americanos, continua em serviço. Versões modernizadas ainda operam com o USMC e nas marinhas da Itália e da Espanha. As operações aeronavais continuam, enquanto italianos e os fuzileiros americanos já realizam a conversão para os novos F-35B. Já os espanhóis ainda não decidiram como será a aviação de caça da sua marinha.

Voo de despedida do Harrier Britânico, em 15 de dezembro de 2010
Foto: UK MoD

E as Malvinas?

A aposentadoria do Sea Harrier e do Harrier está longe de representar uma boa novidade para os argentinos. Logo após a guerra, os porta-aviões britânicos se revezaram no local para manter a cobertura aérea dos Sea Harrier. Assim que a pista de pouso de Port Stanley foi ampliada, caças F-4 Phantom II assumiram a defesa aérea do arquipélago.

Em maio de 1985 o Príncipe Andrew, filho da Rainha Elizabeth II e piloto de helicóptero durante a Guerra das Malvinas, inaugurou a nova base de Mount Pleasant. Em 1992, os Phantom foram substituídos pelos Tornado F3. Em setembro de 2009, deram lugar aos novos Eurofighter Typhoon FGR4.

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A Royal Navy também já caminha para superar o gap operacional deixado pelos cortes de gastos de 2010. Em 2017, entrou em serviço o Queen Elizabeth, nova classe de porta-aviões que já testa os caças F-35B Lightning II. São caças com a mesma capacidade de pouso vertical dos Harrier, porém são supersônicos, stealth e classificados como de quinta geração. Os dois navios da classe poderão operar, cada um, até 36 F-35B. 

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Humberto Leite

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