AVIAÇÃO MILITAR & DEFESA

5 desafios para o novo Comandante da Aeronáutica

Passagem de Comando da Força Aérea Brasileira, em 2 de janeiro de 2023

Quem conhece o Tenente-Brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno sabe: ele é o “homem certo, na hora certa”. Isso porque, ao assumir o Comando da Aeronáutica neste dia 2 de janeiro, o militar ficou diante de desafios significativos, ao mesmo tempo em que é apontado como um dos oficiais-generais mais capacitados do Brasil para cumprir a missão. Ele substitui o Tenente-Brigadeiro Carlos Baptista Júnior.

Tenente-Brigadeiro Damasceno, novo Comandante da Aeronáutica

A solenidade passagem de comando realizada em Brasília consolida uma carreira que transita entre a gestão estratégica e a vida operacional. Por exemplo: quando era o chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, Marcelo Kanitz Damasceno precisava pensar na respostas para a imprensa e na criação da publicidade da Força Aérea Brasileira. Porém, na mesma época, foi incubido de liderar as ações da Força na Operação Ágata 4, voltada para a proteção da região Amazônica. Saiu de lá com o destaque de ter liderado a destruição de pistas clandestinas em meio a selva e de ter conduzido o funcionamento de um Hospital de Campanha montado em uma balsa que percorreu rios atendendo a população ribeirinha.

Talvez o maior resumo do seu papel no Comando da Aeronáutica tenha sido a concepção operacional “Dimensão 22”, criada inicialmente em 2013 e fortemente implantada a partir de 2017, sendo hoje vista nos uniformes dos militares e nas aeronaves. O Tenente-Brigadeiro Damasceno, uma das principais mentes por trás da ideia, pensava ali em uma maneira de destacar o tamanho da responsabilidade da instituição e a necessidade de apoio da sociedade, inclusive de financiamento, tudo com foco no cumprimento da missão da missão institucional. É um exemplo do uso da gestão e da articulação política para o fortalecimento da ponta de lança.

Além da chefia da comunicação social, atuou também como assessor parlamentar, função que exige trânsito entre políticos em Brasília, e como comandante do Quarto Comando Aéreo Regional, localizado em São Paulo (SP), onde teve contato próximo com grandes empresas nacionais e internacionais. Em funções como chefe do Gabinete do Comandante da Aeronáutica, chefe do Estado-Maior da Aeronáutica e adido aeronáutico em Paris, ele se acostumou os meandros das decisões de alto nível.

O currículo tem ainda os comandos da movimentada e destacada Base Aérea de Brasília, do sempre ativo e politicamente delicado Grupo de Transporte Especial e a seção de operações do Esquadrão Phoenix, unidade de patrulha marítima onde o ainda jovem Damasceno acumulou boa parte as suas seis mil horas de voo nos aviões P-95 Bandeirante Patrulha. Contudo, ele tem outra paixão operacional: o Boeing 737-200, do qual a FAB operava duas unidades, designadas VC-96.

Na rota da missão mais desafiadora da carreira, o Tenente-Brigadeiro Damasceno terá desafios que vão exigir todas as facetas desenvolvidas ao longo dos 63 anos de vida e dos 46 anos de carreira.

  1. KC-390 e projetos com a Embraer

Fundada em 1969 como um verdadeiro apêndice do Ministério da Aeronáutica e tendo atuado como parceira em dezenas de projetos mesmo após sua privatização, em 1994, a Embraer enfrentou durante o governo Bolsonaro uma das maiores crises de relacionamento com a Força Aérea Brasileira. A partir de 2019, foram realizados estudos para reduzir a encomenda do KC-390, um dos principais projetos da fabricante brasleira.

A decisão surpreendeu. O KC-390 Millenium foi criado a partir de pré-requisitos elaborados pela própria FAB, com os custos de desenvolvimento pagos pelo contribuinte brasileiro e com a encomenda de 28 aeronaves tendo sido apresentada como uma mudança de patamar operacional para a aviação de transporte e incentivo para inserção do modelo no mercado.

A negociação com a Embraer foi tensa, envolvendo até uma certa “lavagem de roupa suja” em público sobre a importância da FAB para o desenvolvimento da empresa e a ameaça de ser usada a via judicial. No fim das contas, foi firmado acordo para reduzir a encomenda de 28 para 19 aeronaves. O então Comandante da FAB assinou nota oficial onde revelava a intenção de chegar ao número de quinze.

Além dos cortes do KC-390, o governo Bolsonaro abateu o projeto do STOUT, um avião cargueiro leve, que poderia vir a substituir o C-95 Bandeirante. O projeto chegou a ser apresentado pelo Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, Comandante da Aeronáutica até abril de 2021.

Agora, se não puder desfazer os cortes já anunciados, o novo Comandante da Aeronáutica terá como missão tranquilizar o relacionamento não apenas com a Embraer, mas com todo um setor econômico que acompanhou o caso.

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Foto: Força Aérea Brasileira
  1. Incorporação do Gripen e reativação de unidades

O maior mérito da gestão de Bolsonaro à frente da Força Aérea Brasileira em termos de Aviaçao de Caça foi driblar as restrições orçamentárias e garantir o fluxo de recursos necessário para fazer valer o contrato de aquisição assinado em 2014. Com isso, o Brasil conta hoje com caças F-39 em serviço com o 1º Grupo de Defesa Aérea.

A ampliação da encomenda inicial de 36 para 40 unidades foi anunciada em 2022 pelo Comandante da Aeronáutica anterior. Porém, o comentado segundo lote, de 26 caças adicionais, por enquanto, segue em negociação. As unidades biplaces também não serão mais produzidas integralmente por aqui. O que está certo é a prorrogação do prazo: se o contrato original previa 36 caças entregues até 2024, o prazo agora é 2027, sendo que 21 unidades estão previstas para 2026 e 2027. Até 2025 serão apenas 15.

Foto: Bianca Viol / Força Aérea Brasileira

À frente da Força Aérea Brasileira, o Tenente-Brigadeiro Damasceno deverá conduzir a continuidade do processo de compra e de sua ampliação. Isso porque há uma necessidade urgente de reposição da frota: em 2022, sete caças F-5 já foram afastados das tarefas operacionais. Até o fim da década não deverá haver mais nenhuma das 49 unidades modernizadas. A aquisição de 40 Gripen não é suficiente para substituir a frota.

A situação alarmante se tornou mais evidente em dezembro de 2021, quando a Força Aérea Brasileira desativou o Esquadrão Pacau, que voava caças F-5 a partir da Base Aérea de Manaus. Era a única unidade aérea com vetores supersônicos na região amazônica. Em 2016, também havia sido desativado o Esquadrão Adelphi, que voava os aviões de ataque A-1.

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  1. Efetivação do Centro Espacial de Alcântara

O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre Brasil e Estados Unidos entrou em vigor em dezembro de 2019. O texto foi inicialmente discutido a partir de março daquele ano e tinha como objetivo iniciar a exploração comercial do Centro Espacial de Alcântara. Porém, até dezembro de 2022 não houve o início desse trabalho. A empresa sul-coreana Innospace até programou um lançamento para o mês passado, mas foi adiado.

Além da Innospace, outras companhias já se preparam para operar a partir da base brasileira, como a C6 Launch, Virgin Orbit, Orion Ast e a Vaya Space. Caso todos os negócios se consolidem, Alcântara deve se tornar referência na exploração comercial do espaço.

Foguete da Innospace na plataforma de lançamento, em Alcântara. Foto: Força Aérea Brasileira

Ainda assim, apesar do otimismo expresso, nem todos os negócios têm se desenvolvido tão rapidamente: a Virgin, a Orion Ast e a Vaya ainda não têm data para início das operações. Já a Hyperion foi excluída do projeto. A C6 planeja as primeiras decolagens para 2023. Por fim, o empresário Elon Musk, criador da SpaceX, recebido de maneira efusiva por autoridades brasileiras em 2022 e homenageado com a medalha Ordem do Mérito da Defesa, não firmou contrato para ter operações a partir de Alcântara.

Apesar de ser um tema interministerial, com o envolvimento de vários setores do governo, o novo Comandante da Aeronáutica terá papel fundamental para fazer a base em Alcântara se tornar um Centro Espacial de relevância para o mercado.

  1. Equilíbrio financeiro e gestão de pessoal

A área de Defesa tem R$ 124,4 bilhões no Orçamento de 2023, mas 78,2% é destinado a despesa com pessoal. A Força Aérea Brasileira tem replanejado a formação do seu efetivo, com expansão, por exemplo, do número de militares temporários. O desafio é manter a qualificação da tropa mesmo com cursos de formação mais rápidos.

  1. Foco na missão

Apesar de ser o “homem certo, na hora certa”, a escolha do Tenente-Brigadeiro Damasceno para liderar a Força Aérea Brasileira foi, tecnicamente, uma não escolha: o presidente Lula aceitou que a função fosse ocupada pelo militar hierarquicamente seguinte ao Comandante da Aeronáutica anterior, Tenente-Brigadeiro Carlos Baptista Júnior. Isso significa respeito ao princípio de hierarquia e disciplina das próprias forças armadas – este também foi o critério para Marinha e para o Exército.

Na prática, apesar de em repetidas funções o Tenente-Brigadeiro Damasceno ter tido interlocutores políticos na época dos dois mandatos anteriores do presidente Lula, ele não ocupa agora o Comando da Aeronáutica por conta disso, e sim por ser o mais antigo após o comandante anterior. É uma escolha com base em legislação, nos princípios das forças armadas.

Tenente-Brigadeiro Damasceno assume o Comando da Aeronáutica

A promessa presidencial é a de haver uma mudança de rota frente ao visto nos últimos anos quando Marinha, Exército e Força Aérea foram tantas vezes empurradas para o centro do debate político, e mesmo político-eleitoral. No fim das contas, as instituições passaram a receber críticas em um tom elevado (e tantas vezes injustificável) e foram até envolvidas em crises políticas desnecessárias, como em março de 2021, quando o Ministro da Defesa e os comandantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira foram trocados.

A expectativa agora é a de que as forças armadas se concentrem nos seus projetos que efetivamente possam ampliar o poder militar brasileiro para as missões previstas na Constituição e em diálogo com as autoridades a quem estiverem subordinadas.

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Sobre o autor

Humberto Leite

Comentários

  • É o que tem pra hj….sempre o pires na mão…..talvez agora com a ajuda dos narcos……lá o dim-dim não falta…..

  • Aos meus olhos a FAB precisa somente das seguintes aeronaves:
    01 KC-390 e 03 F-39 – Para apresentação no dia do Grito dos Excluídos (7 de Setembro).
    01 H-36 – Para transporte de urnas eletrônicas.
    01 C-99 – Para transporte de órgãos para transplante.
    E os T-29 do EDA para o aniversário das cidades pelo Brasil, além do 7 de setembro, claro.
    Mais que isso, aos meus olhos, é desperdício de tempo, dinheiro que poderiam ser aplicados na saúde, educação e segurança.

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